O tempo ensaboado…

15/09/2020
Esse tempo atual bem merecia o título que dei ao material recebido da minha sobrinha, Larissa, que apresento a seguir. No entanto, uma mesma palavra pode assumir significados diferentes. Enquanto para a sua crônica de mãe, gerada pela riqueza de suas lembranças dos dias vividos na sua estréia nesse papel, atordoantes mas inesquecivelmente felizes, o termo ensaboado remete ao perfume do sabonete que fez brotar suas memórias, o sentido desse termo para o meu tempo atual liga-se mais ao escorregadio de um acontecer, em que o presente fica meio sem registro e, por isso, a recorrência ao que se tornou parte de mim pelos elos afetivos que emprestam valor à vida. Trago, assim, um relato que me emocionou quando li:
O tempo ensaboado ou…

Crônica de uma mãe

Que engraçado. Achei um potinho com o sabonete que levei para a maternidade e resolvi tomar banho com ele. Enquanto tomava banho me lembrei dos meus banhos quando meu filho nasceu. Sentada na cadeira, morrendo de dor, minha barriga doía quando a água batia, parecia agulha, meus peitos enormes, vazando leite, doendo e eu feliz da vida porque era UM banho! E saber que naqueles 30 minutinhos eu podia tomar banho porque mainha estava com ele. Da felicidade que era ver as técnicas de enfermagem chegarem às 8 horas da noite e poder sentar para comer com meu marido e correr para dormir, porque às 12h meu filho acordaria para mamar novamente. Da agonia que era não ter um trabalho, e da felicidade que era poder dormir todos os minutos do trabalho que eu não tinha. Da alegria que era sair de casa para as consultas médicas. Eram meus únicos passeios. Dos cupcakes que minha tia trouxe no primeiro mensário dele porque eu disse que estava morta e não tinha coragem de comemorar. Do bolo que resolvi fazer no segundo mensário e joguei bolo em toda parede… Tive uma crise de riso. E do susto que mainha tomou porque achou que eu estava passando mal. Das sopas da Nutre que mainha comprava, argh! Mas, depois melhorou, virou comida da Sadia!… Dos lanches no final da tarde que meus sogros traziam depois do trabalho e ficavam comigo até meu marido chegar em casa. De como era bom doar leite para quem precisava. De minha irmã sentada dando leite ao sobrinho e desesperada para dormir. Do aperreio de minha cunhada ao tentar colocar uma blusa de manga e da carreira que ela fez assim que o sol raiou. Das vezes que ligava para meu marido chegar mais cedo porque não tinha mais braço para segurar meu filho. Das caras do meu irmão ao descobrir que criança tem umbigo, igual aos bezerros. Do aniversário de minha avó (paterna) aqui em casa, porque “eu” não podia sair. Do choro de mainha quando viu minha avó (materna) entrar no quarto para ver meu filho e dela o colocando para dormir e dormindo junto durante mais de meia hora… Da minha casa cheia de gente. Do sushi que painho e meu cunhado trouxeram para mim, depois de uma desculpa, porque eu não podia sair. Do desespero que era ouvir o choro do bebê às 7h da manhã e saber que o pai ia para o trabalho, e da felicidade que era abrir a porta para a diarista nas terças e quintas e dormir até 10h…………………… Isso tudo só com o cheiro de um sabonete!… Cansativos, exaustivos, mas inesquecíveis dias felizes!

Larissa Ramalho Varella Dutra

12.06.2015

Data da Postagem: 15 de set de 2020

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No Presente imóvel, um presente do Passado

14/09/2020

Já que ando meio depressiva nesses tempos de isolamento e dizem que depressão é excesso do passado e ansiedade é excesso do futuro, pelo menos há passados que são bons para serem revividos como esse agora com que me deparei: uns escritos da minha sobrinha Cecília aos 10 anos de idade, usando o computador no meu apartamento e depois na casa dela. Com sua permissão, os trago para meu diário pessoal que, na verdade, é esse blog.

Uma prática antiga:
EMAIL (de Denise para Cecília)

Fuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu……….

Quem está aí é você mesma? Caiu aonde, no quarto? Pois fique bem deitada na cama enquanto eu digo aqui pra o que sinto por você. Não é muito fácil não, porque são poucas palavras para MUITO bem-querer. Você poderia imaginar um colar de pedrinhas mágicas? E que ele serve para fazer alguém feliz ao usá-lo? Pois você é uma das pedrinhas que num abraço apertado e num sorriso dobrado me faz sempre feliz por ser sua tia. Admiro muito sua curiosidade para o mundo, sua busca de novidades… é, você é, além de tudo, uma menina LINDA. Não dá pra reclamar de Deus, não é?

Beijo com batom, sim! Pelo menos aqui…. Tia Denise

[havia um jogo entre nós, que fazíamos no telefone: em vez de “Alô” a gente se cumprimentava assim – Fuuuuuuuuuuuuuuu…- e a outra tinha que dizer aonde tinha ido parar com a rajada de vento que a tinha atingido; ela ODEIA beijo com batom…]

EMAIL – 30.08.97
(escrito por Cecília em minha casa e enviado para a dela, após escolher o que tinha lido de Guimarães Rosa no meu arquivo RECORTES para mandar para os pais)

Painho e mainha, 30.08.97
Gosto de vocês como gosto do sol, pra mim vocês brilham como ele.

“As coisas assim a gente mesmo não pega nem abarca. Cabem e no brilho da noite. Aragem do sagrado. Absolutas estrelas.”
Grande Sertão Veredas
Guimarães Rosa

beijos Cecília

 

POEMAS

PARTIRAR (sic)

Se alguém partir não fique triste

Pois um dia ele voltará.

FLOR

Eu te dei uma flor com espinhos

Você me deu amor com carinho

Eu te ajudei

Você me ajudou

Emfim nós nos ajudamos e o amor passou.

SOL

Quando o Sol bater

A terra vai estremecer

Mas de alegria

Pois num canto de poesia só existe alegria

Alegria colorida de amor

No canto e na dor

Do povo

Meu senhor

A alegria só existe em harmonia

E no amor pra assumir aquela dor

Que existe entre nós

Senhores e senhoras que precisam de voz

Amor de desejo e alegria de viver

Na alegria existe cor e na cor um amor

De viver no mundo desse amor e de prazer.

VIVER DO DIA

Vivo da poesia

Vivo de amor

Vivo de tudo no mundo que é bom

Vivo de amor

Vivo de poesia

Vivo de alegria

Vivo de comida

Vivo de muitas coisas

Não posso reclamar

Se já tenho poesia, alegria e amor de ainda que preciso?

De nada por isso digo

Não reclame de barriga cheia.

MEU AMIGO O MAR

Um dia virei as costas e vi amigos

Mas não amigos como eu e sim amigos da natureza

Um deles o mar, o céu, a vida também

Fui procurar umas coisas que faltava

E achei alegria e a cor unidas no amor.

FLORES, FLORES, FLORES

No meio da noite as flores balançavam

No meio do dia as flores sorriam

No meio da noite as flores descansavam

No meio do dia sorriam de alegria

Brincando de noite

Acordam de dia.

PERGUNTA – 19.01.98

As vezes eu penso e me pergunto bastante

Porque o sol é tão distante?

Não sei

Não tenho respostas para essa pergunta

Penso bastante e vem uma coisa na minha cabeça

Porque as vezes as perguntas não tem respostas?

Novamente fico sem respostas

Mas as vezes minha cabeça embolia com tanta perguntas e respostas

O que faço com elas?

As jogo fora?

Ou fico com elas?

Não sei

Mas penso que é melhor ficar com elas

Pois em qualquer dia eu posso usalas.

Abaixo, a última coisa que ela me enviou e que escreveu para os 400 anos de Natal, lá no colégio. Ela estava com 11 anos:

NATAL – Abril/99

Praias belas

Que brilham e banham

O povo daqui

Terra bonita

Que traz alegria

Gritamos para ouvir

O seu silencioso balanço

Que também traz

No barulho do vento, paz

Que nos acalma

Nos braços dela dormimos e acordamos

Todos os dias

E durante 400 anos

Essa terra põe seus filhos para

Quietinhos nos seus braços dormir

(Tudo está na íntegra, do jeito que ela escreveu e imprimiu aos 10 anos; a gente sabe que ela faz isso direto no computador, sozinha, sem ler nada na hora, mas é sensível que há ‘inspiração’ de fora, pois era muito pequena quando escreveu tudo isso; deve ter absorvido de leituras, algumas coisas são muito adultas… mas, com certeza não houve cópia, pois ela ficava no computador à vista dos outros)

 

Data da Postagem: 14 de set de 2020

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Análises não analíticas

21/08/2020

 

Ouvi de um grande intelectual, de quem eu me tornei amiga, uma observação, em escrita sobre mim, que guardei com carinho: “… o seu modo de ser é claramente artístico estético, embora você goste de reflexão. No entanto, sua reflexão é sempre no registro do ético. (…) Viver no mundo sem ser dele.”. O termo estético aí – agregado ao termo artístico – se estendia para além do uso tradicional como referência à arte e ao belo, aludindo ao sentido da sensação.

E isso me veio agora à lembrança porque vou falar de livros e filmes que me tomaram de emoção, e que eu nunca vou saber se a forma como os acolhi têm pertinência como análise crítica, dado que, além de não ser expert nem em literatura nem em cinema, eu nunca termino de ler um livro nem de ver um filme em condição de me reportar ao que li ou assisti, simplesmente porque minha memória evocativa voluntária sempre me deixou na mão sem saber o que sei.

Houve dois livros marcantes para mim que, posteriormente, foram transformados em filmes e que me fizeram viver, algo muito curioso: eu assisti os filmes e senti fortemente como se os diretores tivessem lido as obras com meus olhos e meus sentimentos. E, embora normalmente haja um sentimento de perda quando a gente assiste um filme após ler o livro que o baseou, eu senti, nos dois casos, que tinha tido duas expressões igualmente ricas de uma mesma ideia, sendo cada qual na sua linguagem. Assim, tive quatro grandes emoções ao ler e assistir A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera e 1984, de George Orwell. Não trago os nomes dos diretores de cinema porque não lembro mais. A Insustentável Leveza do Ser foi um filme que me trouxe o livro numa linguagem plástica maravilhosa e com uma fidelidade à minha interpretação do livro que me fez ler uma obra preciosa para mim de duas maneiras: uma verbal e uma visual. Já o filme 1984 foi mais curioso ainda, porque as imagens internas da minha leitura eram extremamente semelhantes às imagens que o cineasta imprimiu ao seu filme. 

E quero apresentar um registro sobre um filme, feito algum tempo após tê-lo assistido, que pode mais ainda traduzir a meu possível distanciamento do que deveria constar como uma análise do filme comme-il-faut. Mas, também este ficou muito forte como uma marca em meu eu: A Igualdade é Branca.

LIBERDADE, IGUALDADE, FRATERNIDADE

Revista VEJA, Edição nº1 436, ANO 29 – Nº 12 -20 de março de 1996:

MORRERAM: o cineasta polonês Krzysztof Kieslowski. Autor da belíssima trilogia A Liberdade é Azul, A Igualdade é Branca e A Fraternidade é Vermelha, era considerado um inovador do cinema atual. Kieslowski começou sua carreira fazendo documentários para a televisão polonesa e só passou a ser notado no cenário internacional quando Não Matarás foi premiado em Cannes, em 1988. Ele fez também A Dupla Face de Véronique, ganhou inúmeros prêmios mundo afora, mas nenhum Oscar. Dia 13, aos 54 anos, de enfarte, em Varsóvia.

                        Li com tristeza a notícia e resolvi registrar a marca de sua vida na minha:

                        Se o diretor pensava estar sendo fiel a um momento francês ao se valer das cores da França – AZUL, VERMELHO e BRANCO – no seu simbolismo, valho-me da liberdade de participar da obra reescrevendo-a com meus sentimentos a dizerem a forma como fiquei prisioneira da beleza dos seus filmes. E o faço detendo-me na Liberdade Azul e na Igualdade Branca, sabendo que a Fraternidade Vermelha tece o bordado que une as duas.

                        Kieslowski reinou sobre algo que, preciosamente, originou-se na Grécia, transplantando algo coletivo para uma dimensão da relação humana onde acontece o supremo da igualdade ‘entre pares’, que é coletivo, porém marcado por uma peculiaridade – a de ser um coletivo de apenas um par, no lembrar de Francesco Alberoni.

                        Como as cores da Grécia, a Liberdade é profundamente azul e a Igualdade é luminosamente branca… e gregas! Foram plantadas no solo da acrópole e atravessaram o tempo e o vento, espalhando-se sobre a Terra humanizada, na influência dos antigos passos.

                        Mais precisamente, detenho-me no filme A Igualdade é Branca, por ser nele que encontrei a expressão de síntese maior dos sentimentos. E não por acaso, mas por escolher como base melódica, justamente, o complexo fenômeno da relação amorosa entre um homem e uma mulher.

                        No momento do gozo, o espoucar de uma intensa luminosidade. É perfeita a cena, simbólica e visualmente. Luz, Vida, a emoção estonteante de quem a goza no ato de entrega de si, condição suprema de ser ele mesmo, no limite desta condição e, no entanto, imerso num momento fusional em que o outro está o mais próximo do seu eu quanto isto é possível entre seres que são diferentes e singulares. 

                        E o que permite isto é a condição intrínseca de Igualdade entre os seres, de ausência das relações de poder que entram em jogo em outras relações humanas: não há poderosos no gozo e, no entanto, estão com o poder maior de vislumbrar a Vida através dos seus poros e dos seus sentidos. Ao existir a igualdade entre os pares, cada um vive o exercício da Liberdade máxima de expressão e manifestação do seu eu. Mas, é necessário acatar o outro eu que se coloca no espaço da vivência, pois a igualdade reestabelece o espaço plural onde se fazia apenas singular: você é tanto mais você quanto o outro é o outro, embora você seja também os outros, base necessária para a igualdade que estamos a falar: o compartilhar de subjetividades que nos alça à condição humana.

                        Aí, acredito, reside a importância que a relação amorosa tem para o homem, desafiando a variedade da existência humana e suscitando tantas paradas sobre o tema, nas mais diversas formas. Ainda que de forma fugaz, intensamente concretiza a possibilidade de, numa vivência plural – que o realiza – o eu encontrar o seu espaço de liberdade e reconhecimento, por si próprio e pelo outro, que o confirma enquanto ser.

Denise Dantas

Mar/96

Data da Postagem: 21 de ago de 2020

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Um ursinho e o ´Solitarismo realmente acompanhado´ na Quarentena

16/08/2020

Um precioso presente de Beatriz

Comentei recentemente, numa troca de mensagens no WhatsApp, sobre não ser à toa que meu blog tem o nome de Imparidade e também de eu ter, numa de suas páginas, a escritura Eu sou ímpar!, em que esse adjetivo não tem o uso mais comum e elogioso destinado para alguém especial. Ali eu falo do viver sozinha e do quanto muitas vezes essa forma de viver causa estranheza às pessoas.

Mas, venho agora relatar uma companhia inusitada em minha vida: um ursinho branco de pelúcia.

Se está sendo, realmente, muito pesado o isolamento mesmo para quem muito antes da pandemia se reconhecia na condição de vida isolada, como pode ser retomado no post Solitarismo acompanhado de 11.10.2014, abaixo reproduzido, posso dizer que a vida tem afagos que nos transportam na gangorra dos sentimentos e emoções para o seu lado alto, aquele pedacinho perto do céu onde nos sentimos felizes. Sim, estar feliz faz parte da vida e eu nunca me esqueço disso.

O ursinho branco foi um presente de Beatriz, minha sobrinha-neta, filha de Larissa e Emerson.

Almocei no dia dos Pais e aniversário de Emerson com eles na casa da minha irmã, o que se tornou possível por estarmos sob as mesmas regras rigorosas de isolamento social.

Uns dias antes, Beatriz havia gravado um vídeo para me enviar com sua almofada de sorvete que disse usar para abraçar e não sentir medo do escuro.

E quando eu estava me despedindo e ia voltar para casa, ela foi no quarto dela e trouxe o ursinho da foto e me deu para eu não sentir medo do escuro quando estivesse sozinha. E foi como se ela estivesse dizendo que vinha comigo. Realmente, foi um presente da sua presença, pois todas as vezes que olho para ele eu me lembro dela e meu coração fica ocupado pelo amor que sinto por essa fofinha do meu coração.

Beatriz, que ainda vai fazer 4 anos em outubro, ela sim, é impar no sentido de especial para mim!

Data da Postagem: 16 de ago de 2020

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Solitarismo acompanhado 

ou

A Loba da Estepe

O meu raciocínio chega a ser simplista quando falo que acredito que haja concursos levados com honestidade: se eu não sou peixe, nem planta, nem outro elemento vivo da natureza, das duas uma: ou eu sou de outra espécie desconhecida ou sou humana. Como não sou alienígena, sendo humana eu compartilho minhas características com mais indivíduos dessa espécie. Eu não estarei nunca totalmente sozinha em meus valores, que foram adquiridos socialmente. Portanto, eu sei que seria honesta como examinadora em um concurso e acredito que haveria muitos outros que seriam honestos também.

Pois bem, hoje, excepcionalmente, resolvi postar algo que não escrevi, mas que me proporcionou também o sentimento de inclusão na espécie humana, ainda que venha do campo ficcional da literatura. Na verdade, são dois textos diversos, cujos recortes remetem ao mesmo tema: o solitarismo acompanhado, ou seja, a condição solitária de vida que encontra irmandade em alguns personagens desses livros.

O Lobo da Estepe de Hermann Hesse, relido mais de 25 anos depois…

“… O Lobo da Estepe perecia por sua própria independência. Havia alcançado sua meta, seria sempre independente, ninguém haveria de mandar nele, jamais faria algo para ser agradável aos outros. Só e livre, decidia sobre seus atos e omissões. Pois todo homem forte alcança indefectivamente o que um verdadeiro impulso lhe ordena buscar. Mas em meio à liberdade alcançada, Harry compreendia de súbito que essa liberdade era a morte, que estava só, que o mundo o deixara em paz de uma inquietante maneira, que ninguém mais se importava com ele, nem ele próprio, e que se afogava aos poucos numa atmosfera cada vez mais tênue de falta de relações e de isolamento. Havia chegado ao momento em que a solidão e a independência já não eram seu objetivo e seu anseio, mas antes sua condenação e sua sentença. O maravilhoso desejo fora realizado e já não era possível voltar atrás e de nada valia agora abrir os braços cheio de boa vontade e nostalgia, disposto à fraternidade e à vida social. Tinham-no agora deixado só. Não que fosse motivo de ódio e de repugnância. Pelo contrário, tinha muitos amigos. Um grande número de pessoas o apreciava. Mas tudo não passava de simpatia e cordialidade; recebia convites, presentes, cartas gentis, mas ninguém vinha até ele, ninguém estava disposto nem era capaz de compartilhar de sua vida. Agora rodeava-o a atmosfera do solitário, uma atmosfera serena da qual fugia o mundo em seu redor, deixando-o incapaz de relacionar-se, uma atmosfera contra a qual não podia prevalecer nem a vontade nem o ardente desejo. Esta era uma das características mais significativas de sua vida.” (p.52)

Yalom, Irving D., 1931-

O enigma de Espinosa / Irving D. Yalom; tradução Maria Helena Rouanet. – 1. Ed. – Rio de Janeiro: Agir, 2013.

400 p.; 23 cm.

PRÓLOGO

p.9

“(…). Einstein, um dos meus primeiros heróis, era espinosista. Sempre que ele falava de Deus, era ao Deus de Espinosa que se referia – um Deus inteiramente equivalente à natureza, que inclui toda substância e ‘que não joga dados com o universo’ –, um Deus que significa que tudo que acontecem sem exceção, segue as imperturbáveis leis da natureza.”

CAPÍTULO UM

Amsterdã – abril de 1656

Página 17

“– Diga-me Jacob – principiou Espinosa, voltando-se para o estranho e falando com brandura, como um professor que se dirige a um aluno pequeno –, acredita que Deus é todo-poderoso?

Jacob fez que sim com a cabeça.

– Que Deus é perfeito? Completo em Si mesmo?

O rapaz voltou a aquiescer.

– Então vai decerto concordar que, por definição, um ser perfeito e completo não tem qualquer necessidade, nem insuficiências, nem vontades, nem desejos. Não é mesmo?

Jacob reflete, hesita e, finalmente, concorda sem muita firmeza. Espinosa percebe o leve esboço de um sorriso nos lábios de Franco.

– Sendo assim – prosseguiu Espinosa –, sustento que Deus não tem qualquer desejo quanto a como, ou até mesmo se, nós O glorificamos. Permita-me, então, Jacob, amar a Deus do meu próprio jeito.”

CAPÍTULO ONZE

Amsterdã – 1656

p.107

“– Devo admitir que não. Na hora, porém, achei que estava sendo sensato ao me conter para não dizer outras coisas.

  • Por exemplo?
  • Que Deus não nos fez à Sua imagem. Nós é que O fizemos à nossa imagem.

Imaginamos Deus como um ser igual a nós, que ouve as preces que murmuramos e se preocupa com o que desejamos.

(…)

– Cada vez mais – disse Bento – me convenço de que alguém que vive entre homens com crenças inteiramente diferentes só conseguirá se adaptar a esse meio ao preço de grandes mudanças pessoais.

– Agora começo a entender o que me disse o meu espião sobre a inquietação da comunidade judaica a seu respeito. Você expressa todas as suas ideias a outros judeus?

– Há cerca de um ano, nas minhas meditações, decidi ser sincero em todas as ocasiões…

(…)

– (…). Adoraria encontrar uma comunidade que não fosse escrava de falsas crenças.

(…)

– Temo que esta seja uma batalha perdida – replicou Bento. – A ignorância e as crenças supersticiosas espalham-se como rastilho de pólvora, e acredito que os líderes religiosos alimentam esse fogo para garantir a sua própria condição.

(…)

– Estou persuadido que preciso ser livre. Se tal comunidade não existe, então talvez precise viver isolado.”

Data da Postagem: 11 de Out de 2014


Defesas de tese

10/08/2020

Há momentos que marcam nossas vidas. Hoje é um deles para minha sobrinha Larissa Varella Dutra. Fisioterapeuta, estará logo mais defendendo sua tese de doutoramento na UFRN com tema sobre a saúde da mulher, área de sua eleição profissional: Efeitos da Eletroestimulação Transcraniana Por Corrente Contínua Sobre a Dor, Funcionalidade e Estado de Humor em Mulheres com Dismenorreia Primária. E estou brindando o alvorecer com o sentimento de felicidade no coração por acompanhar seu percurso do construção pessoal tal rico e tão forte. Nesse período de demandas complexas impostas pela pandemia do Covid-19, com tantas alterações em nossas vidas, com tantas repercussões emocionais de incerteza que recobrem todo o nosso viver atual, Larissa enfrentou e atingiu o fechamento do ciclo do seu doutoramento, algo que a fez, para mim, mais merecedora ainda da minha admiração pela sua capacidade de luta e pela sua resiliência.

Todo o meu amor e minha torcida para Larissa logo mais à tarde.

A partir da renovação geracional da vida apreendida no acontecimento referido acima, me veio à lembrança o que vou retomar a seguir: a minha defesa de tese.

Eu, que não me reconheço absolutamente como saudosista, valorizo muito o percurso histórico das nossas vidas e o sentido que as configura pode ser encontrado em momentos que, se ficam no passado e não são idealizados como contraponto aos momentos do hoje, imprimem o significado e a compreensão do que nos tornamos a cada instante actual do nosso Eu.

E me voltei para reler o meu momento de defesa de tese na USP, com uma banca presidida pelo orientador mais precioso que eu poderia ter, por tudo o que ele é como intelectual brilhante e como pessoa humanamente rica – Prof. Gilberto Safra – e composta por Prof. Sylvia Leser de Mello, Prof. Tania Maria José Aiello Vaisberg, Prof. Suzana Magalhães Maia e Prof. Latife Yazigi.

Trago, a seguir, a apresentação levada à apreciação da banca.

“O AMOR NO FEMININO:  ocultamento e/ou revelação?”

Denise Ramalho Dantas de Araújo – DEPSI / CCHLA / UFRN

Eu estou aqui para falar do trabalho “O AMOR NO FEMININO: ocultamento e/ou revelação?”, desenvolvido neste doutorado sob a orientação do professor Gilberto Safra, a quem agradeço o apoio dado.

“Feminino” aí se refere ao universo constituinte da pesquisa, mulheres que tiveram experiências de vida amorosa, e a outra parte,  “ocultamento e/ou revelação”, traz a questão-chave da investigação que está no fato da existência do relacionamento amoroso ser ou não visível e compartilhado pelos parceiros amorosos, de uma forma livre e espontânea, com todos os grupos sociais a que pertencem, ou pelos quais circulam.

Sou Denise Ramalho Dantas de Araújo, trabalho na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, e sou lotada no Departamento de Psicologia. Nele, até antes do doutorado, eu vinha me dedicando, fundamentalmente, ao ensino de psicologia social. E minha proposta de pesquisa, aceita por este programa, se caracteriza por não levar em consideração de uma forma rígida as fronteiras internas nem também as fronteiras externas da Psicologia. Eu tenho uma formação plurifacetada no sentido de que fiz uma primeira graduação em Arquitetura, depois me graduei em Psicologia, tendo feito, em seguida, um mestrado em Ciências Sociais, com a dissertação intitulada “Os Significados de Público e Privado entre alunos, professores e funcionários da UFRN”.

Falar desse percurso ajudará provavelmente a que entendam o tipo de pensamento que me é característico, pois o que chamei no texto de “dança interpolar” para me referir à opção teórica feita, faz parte de uma forma de relação com o mundo em que sou atraída pelas articulações, pelo movimento, pelo deslizamento entre a face e o verso dos fenômenos.

O objeto de estudo – as vivências amorosas da mulher em relacionamento amoroso heterossexual não integrado à vida social como um todo – foi definido baseado nesses passos anteriores. A sua construção foi, também, resultante de uma confluência de fatores, entre os quais quero falar daquele momento intrigante do confronto das leituras dos livros de Milan Kundera, “A insustentável leveza do ser” e de Francesco Alberoni, “O erotismo”, pois havia uma “inversão” curiosa: na fala da personagem feminina de Milan Kundera, viver dentro da verdade requeria o secreto, o estar no âmbito do privado, e o viver dentro da verdade para o personagem masculino requeria o espaço público, a visibilidade; já Alberoni, traz a fala da personagem feminina de Kundera para situar a questão do viver dentro da verdade como sendo do âmbito do privado, curiosamente, quando está a discorrer sobre o erotismo masculino. Se ele não situa propriamente a questão como sendo própria do homem e imprópria da mulher, é interessante perceber que vem à tona quando está se referindo ao erotismo masculino. E aquilo foi intrigante porque quando li Kundera tive a sensação de que “algo estava fora do lugar e quando li Alberoni, tive a impressão de que aquilo tinha sido recolocado no devido lugar, na minha cabeça.

“Não integrado à vida social como um todo” significa situações de vida em que o par amoroso não transita livremente por todos os espaços de vida social dos dois, por algum tipo de constrangimento ou pressão, seja porque os dois são casados e têm relacionamentos extra-conjugais, seja porque um dos dois é solteiro e o outro casado, ou ainda, por uma situação estigmatizável qualquer por uma sociedade que impõe sanções ao tipo de relacionamento.

Assim, fui levada a entrevistar mulheres em busca de suas histórias de vida amorosa. Fui à realidade concreta com uma demanda de pesquisa que exigia, sem dúvida, uma orientação básica. E eu tinha uma pergunta de partida, que me servia de diretriz inicial: “Como o reflexo da não-integração dos espaços de vida, pública e privada, no seu sentimento de identidade enquanto parceira amorosa, atinge o relacionamento amoroso para a mulher”, passível de revisão sim, mas necessariamente existente para que eu pudesse me dirigir para uma população que cobrisse o objeto de estudo já definido. No entanto, o que interessava trabalhar eram os achados com que me depararia, os discursos das entrevistadas.

Em função dessa pergunta de partida, foi formulado um perfil para que, apresentado a pessoas que conheci em São Paulo por ocasião da minha permanência ali no semestre de 98.1, pudesse me conduzir a potenciais colaboradoras: mulheres, com qualquer estado civil à época, da chamada classe média, entre trinta e cinqüenta anos, aproximadamente, devendo ter (ou ter tido) experiência de relacionamento amoroso não integrado à sua vida social como um todo. Assim, cheguei, finalmente, às colaboradoras e entrevistei aquelas cujos discursos compõem o corpus desta pesquisa: Cristina, Márcia e Ana Lúcia. Estes foram os casos que, realmente, se apresentaram pertinentes ao objeto de estudo eleito para pesquisa e isto fixou o limite do universo pesquisado.

Definido um objeto de estudo, todos sabemos que, a partir daí, há como decorrência uma escolha de metodologia. E, para este objeto de estudo que foi definido, o modo de investigação adotado foi o de estudos de caso entrelaçados. E estes estudos de caso entrelaçados foram levados adiante numa abordagem qualitativa, com um enfoque compreensivo, tendo a fenomenologia como metodologia de compreensão. 

O que tenho como tese defendida é a leitura feita dos discursos de Cristina, Márcia e Ana Lúcia que, se foi provocada por uma pergunta de partida que engendrou toda a formulação da pesquisa, esta já não dominava a cena nessa hora do debruçar sobre as narrativas de suas histórias de vida amorosa.  Respeitando tais achados, eu desenvolvi a seguinte tese neste ensaio:

revelação da existência do relacionamento amoroso – a sua publicização – angaria ganhos psicológicos para a parceira amorosa que vão além dos efeitos de liberação da tensão do ocultamento.

Quando eu me apresentei, falei do meu percurso e da minha atração pelas articulações, pelo movimento, pelo deslizamento entre a face e o verso dos fenômenos. E eu quero estender um pouco isto agora para, de certa forma, explicitar e ficar mais claro o tipo de pensamento que me é característico quando eu lido com o fenômeno psicológico e o sentido que isto toma no trabalho. Para isto, eu vou utilizar o apoio da fita de Moebius.

Fita de Moebius

Eu poderia dispor de uma série de pares dicotômicos em que os elementos opostos significam, cada um, a condição de existência do seu oposto, para dispor num lado e doutro desta fita. Eu destaquei alguns.  Então, eu peço que vocês me acompanhem no manuseio e apresentação da fita. Vejam, então, que tenho elementos de um lado e de outro da fita que deve ser fechada após uma torção em suas pontas, assim… [mostrar primeiro a fita de um lado, virar depois para o outro lado, e demonstrar como se dá o fechamento da fita]. Os pares que usei para esta demonstração são Eu/Outro, Singula­rida­de/Plu­ra­lidade, Particu­lar/­Universal, Descontinuida­de/Conti­nuidade. Chamo a atenção que coloquei conceitos na vertical e em azul, que dizem respeito a este “Eu” – experiências ônticas, self, identidade social, papéis sociais – e que poderiam ser entendidos como deslizando, nesta ordem, de um pólo mais individual do “Eu” para o seu pólo mais social.  A isto, contrapus o conceito de cultura, no verso da fita de Moebius, que não tem verso

Este foi o movimento básico que me levou a compor um referencial teórico de forma a permitir uma dança interpolar, em que o amor, considerado como uma construção singular e plural, é visitado por olhares não restritos à psicologia e psicanálise e, nessas disciplinas, é percorrido com o apoio de conceitos oriundos de bases diferentes, na medida em que funcionalmente eles não são correspondentes. 

Voltando aos conceitos que estão em azul, quero que seja acompanhado o movimento do pólo mais pessoal para o pólo mais social do “Eu”, caminhando de uma ponta para a outra e pensando nesta singularidade individual como uma totalidade. 

Continuando a, de certa forma, demonstrar um pouco esta questão do tipo de pensamento que me é característico, eu quero também falar de um momento da pesquisa em que eu estava lendo o texto de Fábio Herrmann – o capítulo intitulado “O escudo de Aquiles” em “O divã a passeio” – e em que eu me deparei com conceitos que foram visualizados em imagens mentais.

Li Herrmann, pensando no par amoroso. 

Ele faz uma analogia entre a função defensiva da representação e o Escudo de Aquiles. Só tem que, no caso, ele utiliza duas camadas em vez das cinco do escudo original, sendo o espaço entre as camadas preenchido pela crença, como uma liga a unir as camadas. Para ele, na unidade do ato representacional, a camada externa seria a representação do Real – a realidade – e a camada interna seria a representação do Desejo – a identidade. E, entre uma camada e outra, existiria uma liga que seria a crença. Estou aqui com dois indivíduos – pois esta foi a imagem que me veio à cabeça – pensei em dois indivíduos que estivessem, de certa forma, em contato, em comunicação e que tivessem aqui a possibilidade deste contato, desta comunicação pelo toque dos seus escudos representacionais, pelos seus “Escudos de Aquiles”. E este espaço da crença seria exatamente o espaço das trocas simbólicas – sem contágio – da realidade compartilhada, ou seja, de imersão no mundo das representações da cultura na qual eles estão inseridos e que compartilham. Então, a produção de sentidos seria possível no mundo humano, exatamente, pela relação. E, ao mesmo tempo, seria a própria produção de sentidos que caracterizaria este mundo como humano.

Mas, ao me vir esta idéia, essa imagem, me veio imediatamente em seguida uma imagem um pouco diferenciada pela associação que me veio da questão do espaço potencial de Winnicott. E a imagem já se apresentou, então, como esta figura em que esses escudos tinham uma certa imersão aprofundada no outro a ponto de, além do contato se dar pela crença, haver uma área em que havia certa imersão de um no desejo do outro. Havia, então, uma área que seria a área do desejo. No caso, me veio a imagem trazida pela lembrança associada do conceito do espaço potencial de Winnicott, aquele espaço do lúdico, do não-representável, o espaço do ôntico, do não-simbolizável. E aí estava o espaço da possibilidade da ação criativa que permite a emergência da singularidade numa forma revolucionariamente nova. Ou seja, eu visualizei na mesma imagem mental forjada pela teorização de Herrmann, a proposta conceitual de Winnicott neste sentido do espaço potencial e isso reafirmou para mim o meu caminho de deslizamento entre conceitos. 

Então, eu trabalhei com um referencial teórico    que foi concentrado num capítulo. Para analisar as narrativas de Cristina, Márcia e Ana Lúcia, em que havia expressões diversas dos seus “eus”, relatos daquelas experiências sentidas como de difícil descrição e de outras em que havia a clareza da referência aos aspectos reguladores de conduta presentes nos papéis sociais, recorri a uma articulação de conceitos como se fossem a mácula da retina: eles atuavam no fundo do meu olhar. Antes da parte analítica dos discursos, houve uma concentração num capítulo que foi a seguinte:

O Capítulo I, “A vida é arte no gerúndio”, que se inicia com uma apresentação do objeto de estudo, dos objetivos, da justificativa, ou seja, da própria proposta de pesquisa com o título “Emergindo uma pesquisa”, tem depois mais três itens:

1.1. Amor: construção singular e plural

1.2. A cada instante uma  nova  pessoa, um  novo  amor, um  novo par amoroso: o self-verdadeiro em ação

1.3. Particípio passado: sob a égide do falso-self

Este capítulo aglutinou em 1.1. o aspecto plural da construção do amor e em 1.2. e 1.3. o aspecto singulardesta construção. Em 1.1. foram utilizados os apoios teóricos de Comte-Sponville, com sua visão articulada das modalidades do amor, Eros, Philia e Ágape; Francesco Alberoni, com sua análise do erotismo, masculino e feminino; André Lázaro, com a apresentação das Eróticas do mundo antigo, do mundo medieval, do mundo moderno e do mundo contemporâneo; Denis de Rougemont, com  sua análise sobre a paixão e o casamento no mundo ocidental;  e Jurandir Freire Costa com sua gramática do amor romântico. Foram leituras que me permitiram elaborar uma periodização do amor de forma a que o reflexo dessa dimensão sócio-histórica na subjetividade da experiência dos parceiros amorosos fosse melhor compreendida.

Em 1.2. e 1.3., tendo o amor concebido como uma potencialidade opcional, foram apresentados os dois conceitos de Winnicott, verdadeiro-self e falso-self, de forma a que fosse compreendido o relacionamento amoroso como uma das vivências possíveis no amadurecimento pessoal de alguém, quando carrega a renovação e criatividade, ou então sem este caráter, quando está obstacularizado por um falso-self hegemônico. Há, ainda, a articulação do conceito de identidade social.

A opção por um tratamento teórico sem rigidez, não me fez esquecer o cuidado com antagonismos inconciliáveis. E permitiu que o deslizamento entre self e identidade social  viabilizassem a análise dos conteúdos mais dinâmicos das entrevistadas e dos elementos vivenciais mais voltados ao aprendizado social da conduta amorosa.

Dessa forma, cabe explicitar que, do ponto de vista do psicológico, o apoio teórico central foi dado por Winnicott com seus conceitos de verdadeiro-self /  falso-self, criatividade, espaço potencial e comunicação, mas foram utilizados outros conceitos, articuladamente. Principalmente, o conceito de identidade social que vem da psicologia social através de Ciampa, além da própria leitura feita de Herrmann que foi fundamental para a decisão de fazer o deslizamento entre conceitos.

E, além disso, não como parte do continente teórico configurado pela visão da construção plural e singular do amor, mas como um istmo teórico, foram utilizados – e com grande utilidade teórica – os conceitos de desacreditável e desacreditado de Goffmann que, com sua visão de antropologia social sobre o estigma, ajuda a dar conta dos aspectos fenomênicos do objeto de estudo. Desacreditado seria o estigmatizado que assume que a sua característica distintiva já é conhecida ou é imediatamente evidente e desacreditável seria o estigmatizado que assume que a sua característica distintiva não é nem conhecida pelos presentes e nem imediatamente perceptível por eles.

Com este continente teórico complementado por Goffmann houve o trabalho analítico e aí os estudos de caso entrelaçados foram organizados no Capítulo II cujo título é “Amando e/ou sendo amada: nós que se (des)atam”. Este capítulo tem uma introdução metodológica “Ajustando a lente”, onde a metodologia adotada foi informada com mais profundidade, e depois tem o item 2.1. “Andanças e sentimentos” onde está presente o cerne da pesquisa, ou seja, os discursos das entrevistadas são tratados analiticamente e expostos em suas conclusões. Primeiramente, há uma apresentação sucinta de cada uma das entrevistadas – Cristina, Márcia e Ana Lúcia – como se fossem fotos 3×4 e depois há o que é o momento dos estudos de caso entrelaçados, quando ocorre aquilo que eu chamei a leitura de um filmeformado pelo movimento entrelaçado das fotos de Cristina, Márcia e Ana Lúcia.  Neste momento, os conceitos teóricos articulados analiticamente com os dados da realidade epistêmica permitiram que surgissem conteúdos que são distribuídos segundo os títulos:

” A força da revelação no processo de amadurecimento pessoal”, onde abri a apresentação da tese defendida. Aí, eu argumento no sentido de que o ocultamento de uma posição que provocaria estigmatização, se revelada, evita a sanção social, mas acarreta o ônus psicológico da tensão permanente de vir a descoberto o que se está ocultando. Assim, a revelação que tem a conseqüência negativa da sanção social, tem o benefício da eliminação da tensão. Porém, e aqui está o ponto nevrálgico deste trabalho, ela seria parte integrante da qualidade positiva do desenvolvimento pessoal dessas mulheres e, por isso, superaria o simples ganho da liberação da tensão como efeito. A revelação comporia o seu amadurecimento pessoal com base na primazia do verdadeiro-self ;

“O amor no casamento: uma etapa do desenvolvimento do self”, onde se apresenta a apreensão, no discurso das entrevistadas casadas que tinham relacionamentos extraconjugais, da função que aquele relacionamento do casamento, não sendo tão significativo do ponto de vista do que é apreendido como Amor, teve para elas em termos de desenvolvimento.

“Dividindo os espaços da vida: o amor fora do casamento”, analisa os discursos das entrevistadas sobre seus relacionamentos extraconjugais; 

“Os espaços da vida sendo divididos: amando homens casados” analisa as questões presentes na situação da entrevistada solteira que tem relacionamentos com homens casados; e 

“Veredas” é apenas um registro à parte desses itens que constituem, de fato, o corpo do trabalho. Foram elementos da análise dos discursos que mereceram registro e que ficaram como um acréscimo à tese.

Então, “O AMOR NO FEMININO: ocultamento e/ou revelação?”,  com a tese “A revelação da existência do relacionamento amoroso – a sua publicização – angaria ganhos psicológicos para a parceira amorosa que vão além dos efeitos de liberação da tensão do ocultamento” teve as seguintes conclusões, os seguintes achados, melhor dizendo:

“a) O que é mais significativamente apreendido como Amor agrega, fundamentalmente, Eros e Philia”, ou seja,  embora Ágape também entrasse como uma modalidade importante na vida dessas mulheres, o amor que significativamente tomava este sentido para elas não podia dispensar a modalidade erótica e a da alegria da amizade;

“b) Amor é comunicação; sentir-se verdadeira no relacionamento amoroso é estar em comunicação intermediária e pessoal e silenciosa no sentido winnicottiano”; esta é uma conclusão muito rica do ponto de vista do entendimento do processo amoroso na medida que traz a questão do lúdico e da comunicação além da questão simbólica e representacional, realçando os seres singulares em contato através dos seus verdadeiros-selves;

“c) O humor e a brincadeira são essenciais no relacionamento amoroso significativo e isto requer uma atuação segundo o verdadeiro-self “. Também com bastante força isto vem apoiar a questão da criatividade no relacionamento na medida que o humor e a brincadeira são aliados dessa possibilidade de acrescentar o novo às ações e relações.

Então, foram estas as conclusões a que a pesquisa permitiu chegar. Fico, então, à disposição da banca para a argüição. 

Data da Postagem: 10 de ago de 2020

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Achados na pandemia

03/08/2020

ondas delta

Por curiosidade, ao notar minha glicemia em jejum significativamente mais baixa ao longo dos últimos tempos, tenho procurado algumas possíveis relações em sites como o Scielo, sem a pretensão de estar fazendo pesquisa científica, apenas pela prática comum na minha vida da busca de por quês.

Assim, encontrei algo que poderia residir no uso de suplemento vitamínico que estou em uso atual, mas não concluo por mim mesma, dado que eu não domino a leitura dos artigos da área da saúde. Quando a curiosidade permanece latente, no máximo eu procuro saber mais algum dado com médicos, sem lhes imputar a responsabilidade pelas minhas conclusões leigas.

E, como tenho feito uso do iPad ligado em canais de música relaxante, na medida em que considero dormir bem algo primordial em termos de bem-estar e não quero ter isso afetado pelo coronestresse, levantei hoje e, ao detectar a minha glicemia em 98, o que para mim é excepcionalmente boa, pensei se haveria possibilidade de relação entre ondas delta e glicemia. Tenho usado ligar no canal Nu Meditation Music, precisamente em https://www.youtube.com/watch?v=tfkRqtxSgHs&list=PL0a2VLJDFL7P7QY5zNMiSh-ugvXMCAhJb.

Enfatizo que minha curiosidade, que me acompanha desde a infância, quando olhava insetos com lupa e planetas com luneta, não incorre em conclusões por mim tomadas como científicas (algo tão falado nos dias atuais) nem definitivas e, por isso, não trago meus comentários para serem interpretados senão como divagações lúdicas e leigas.

Eis que, entre os links que surgiram na busca (apesar do uso do termo Scielo), apareceu a indicação de um blog, ao que parece já sem alimentação nova desde 2017, que apresenta nos passos sequenciados abaixo, uma visão sobre as ondas do funcionamento do cérebro. E, assim, trago para quem tiver curiosidade sobre o tema.

Na página inicial do blog, há uma descrição do seu propósito que fala “Esse blog aqui é uma ‘Akasha’, tipo aquele campo de Registros Akáshicos,..”. Sem desrespeitar a diversidade de posições, confesso ser uma pessoa cética quanto às explicações dadas para o que ultrapassa o nosso entendimento racional, embora considere que nossa racionalidade tem limites e, por isso, para mim sempre haverá o que foge ao campo da compreensão humana, inclusive cientificamente falando. Com isso, quero dizer que não me identifico com a linha de propósito do blog, nem com a busca da autora pelo que li depois em sua página no Facebook, mesmo tendo trazido o que dele ficou de interessante para mim, sem tomar senão como pontos de interrogação, e não de afirmação, sobre o que é dito.

Até fiquei com vontade de ouvir a crítica dos que compõem o https://neuro.ufrn.br sobre o conteúdo aí apresentado, pois teria uma referência que muito respeito para me assegurar da validade científica do que é apresentado, já que não consegui saber sobre a formação da autora. No entanto, o que normalmente ocorre é que não chegam para os leigos apresentações simplificadas sobre esse tipo de assunto como essas do blog. Vejam, se também foram curiosos sobre o tema, após tais ressalvas quanto ao conteúdo:

https://akashaeletromagnetica.wordpress.com/2017/03/14/brainwaves-ondas-cerebrais/

https://akashaeletromagnetica.wordpress.com/2017/03/14/ondas-infra-low-05/

https://akashaeletromagnetica.wordpress.com/2017/03/14/ondas-delta-0-5-a-3-9-hz/

https://akashaeletromagnetica.wordpress.com/2017/03/14/ondas-theta-4-a-7-9-hz/

https://akashaeletromagnetica.wordpress.com/2017/03/14/ondas-alpha-8-a-12-hz/

https://akashaeletromagnetica.wordpress.com/2017/03/14/ondas-beta-12-a-38-hz/

https://akashaeletromagnetica.wordpress.com/2017/03/14/ondas-gama-38-a-419-hz/

https://akashaeletromagnetica.wordpress.com/2017/03/14/dossie-ondas-mu-8-a-13hz/

https://akashaeletromagnetica.wordpress.com/2017/03/15/binaurais-parte-9/

https://akashaeletromagnetica.wordpress.com/2017/03/15/tons-isocronicos-parte-10/

Complemento a posteriori:

O tema onda cerebral despertou minha curiosidade pela primeira vez na vida quando foi reconhecida – tardiamente, por ter nascido há milênios – a minha condição de DDA. Tenho anotado dessa época: ´O EEG de sono (quando não dormi, mas fiquei relaxada) acusou, além de uma organização normal, ondas theta na região fronto-temporal. Terminei me esquecendo de perguntar o significado disso ao médico e aí fui ver na internet. Encontrei uns sites “esotéricos” em que era feita uma associação de ondas theta com criatividade. Mas, não encontrei nada que me esclarecesse do ponto de vista médico o que significava isso. Como o médico descartou Parkinson, Alzeimer, tumor, etc., fiquei tranqüila, mas restou a curiosidade sobre o fato. Até porque ele tinha feito um comentário muito de passagem sobre o eletro ter uma coisinha, mas estar normal. Na hora, falou outra coisa e perdi o bonde. Na nova consulta com Dr…, perguntei sobre o que havia feito ele dizer que o EEG tinha alguma coisinha, mas que não era importante. Perguntei se era a presença de ondas theta e ele confirmou. No entanto, considerou que era uma ocorrência casual

Data da Postagem: 02 de ago de 2020

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O ser humano é comunicação… no tempo e no espaço.

21/06/2020

Em 2015 eu manifestei minha visão de ser humano no momento em que a liberdade de imprensa sofria alguns reveses em nosso país, pela simbologia de uma boca fechada que lhe retiraria sua máxima condição de humanidade: a comunicação. Talvez tenha, inclusive, sido pouco clara, para quem leu a postagem em outro momento, pelo aparente paradoxo da afirmação positiva no título e a imagem contrariando o que ali estava dito. 

Mas, no texto de pouquíssimas palavras, eu disse que Fechar a boca

Não vou entrar aqui na discussão atual – estamos em 2020 – sobre a liberdade de expressão assegurada constitucionalmente, mas, para que fique clara a minha posição, expresso que a considero um direito fundamental e que, para ser exercido com responsabilidade, não pode ser ilimitado para um indivíduo. Singularidade e pluralidade vivem uma tensão dialética que não admite ser rompida sem efeitos danosos caso um termo tente desconsiderar a existência do outro. Isso faz parte da essência democrática na vida em coletividade.

Hoje, vivendo o drástico período da pandemia jamais imaginada em um ontem bem recente, senti vontade de complementar o que falei.

O ser humano é comunicação e comunicação é um processo de via dupla: ela precisa contar com um emissor e um receptor para que se efetive. E minha reflexão atrelada à crise da quarentena se dá porque ainda há outro elemento que trago como sendo essencial para a humanização: a sincronicidade na comunicação. 

Ela não é uma exigência para que todas as comunicações se realizem, evidentemente. Apenas venho ressaltar algo que nesta quarentena se acentuou para mim, particularmente, e que me esvazia do sentido como ser humano.

Não sei se conseguirei traduzir a mim mesma, mas vou tentar.

À medida que a vida pessoal foi absorvendo a aceleração dos processos sociais em todas as esferas, foi se tornando cada vez mais habitual, porque de certa forma necessário, que os contatos sociais, em seu sentido puramente humano do compartilhamento das vidas por amizade e laços familiares, passassem a ficar cada vez mais requerentes do respeito ao tempo do outro para poder acolher uma comunicação síncrona. Ou seja, a espontaneidade havida há muitos anos atrás, quando, já com o uso da tecnologia do telefone, as pessoas ligavam para alguém e eram atendidas e conversavam, ou seja, quando emissor e receptor da comunicação estavam em contato ao mesmo tempo, há muito deixou de existir. Sem dúvida, há outras razões para tal mudança, mas quero acentuar o respeito pelo tempo do outro, que pode estar ocupado, dada a sobrecarga de afazeres que a vida atual comporta, praticamente, para todos. 

Assim, paradoxalmente, se estamos mais instrumentalizados pela tecnologia para nos comunicarmos, temos também nela o reforço e a facilitação para que as pessoas sejam emissores e receptores assíncronos. Podemos anunciar por um WhatsApp que precisamos ligar e saber quando isso poderá ser realizado, podemos enviar mensagens que serão lidas – ou não lidas – no timing do receptor, podemos usar um blog para emitir uma comunicação que poderá, ou não, se efetivar como tal pela existência ou não de um receptor-leitor, etc.

E, se estou falando isso, não é porque seja contrária às comunicações que se completam assincronamente. Até já relatei como gosto do uso da palavra, cada vez em maior declínio, no post Nasci no século XVIII, e como cartas e emails eram muito apreciados por mim. Sou assumidamente prolixa e também amante do derramamento de palavras… E é claro que cartas e emails não são formas de comunicação síncrona.

Mas, a quarentena acentuou ao extremo a comunicação síncrona como uma improbabilidade para quem vive e mora só, como acontece comigo e com muito poucas pessoas, considerando o universo total de seres humanos, embora seja frequente as pessoas contraporem situações pessoais que não entram nesse estilo de vida, como se tentassem minimizar essa especificidade de forma de vida que levo no que ela tem de pesado. Esquecem que há também o lado de leveza, reconhecido por mim, e que ser empático não é sentir piedade e sim compaixão, como bem fala Milan Kundera que eu trouxe no post Empatia. Digo isso porque ao falar de uma vivência que tenho, não estou atribuindo a mim uma condição inferior como ser humano, nem sentindo pena de mim, apenas constatando uma realidade difícil que se impõe e que, para mim, não adianta camuflar com fantasias nem por um jogo do faz-de-conta. Vale mais enfrentar e superar através de saídas criadas para reencontrar minha humanidade por outras vias.

O que é perceptível é que as pessoas estão vivendo esse tempo extraordinário com muitas demandas novas em todos os sentidos. Vou me ater aos que têm uma condição socioeconômica mais próxima da minha, embora saiba que isso está acontecendo para todos e, como sabemos, com a gigantesca desigualdade social sendo mais uma vez uma espada cruel a cortar de forma mais dolorosa a carne e o espírito dos que têm menos.

Ainda um outro elemento eu agregaria ao que refleti sobre a vida em quarentena. Peculiar à imposição do isolamento social, as famílias têm interagido muito mais intensamente do que faziam antes, na medida em que ocupam o mesmo espaço e passaram a ter novas tarefas e novos papéis funcionais: além do trabalho em home-office para alguns, os serviços domésticos e os cuidados com as crianças, no que se incluem as tarefas escolares com supervisão dos adultos, estabeleceram novas vivências anteriormente inexistentes e sequer imaginadas.

E aí eu trago uma forma pessoal de entender a diferença entre ter uma família e ter familiares. Não é uma classificação científica, mas foi a forma como consegui traduzir o que as pessoas não conseguiam captar quando eu dizia ser sozinha além de morar sozinha. Ao falar isso, eu sempre sentia que parecia, a quem me ouvia, que eu estava me queixando e sendo ingrata porque tenho irmãos e tenho sobrinhos, embora tenha perdido já meus pais, seja divorciada e não tenha filhos. No entanto, eu me refiro especificamente ao sentimento de pertença.

Na verdade, eu tenho sobrinhos que considero filhos do coração, tenho bons laços afetivos com meus familiares e sou grata por isso ser assim. Mas, quando faço a diferença e digo que não tenho família, isso se deve a que considero família aquele círculo íntimo de pessoas que recebem o termo família nuclear, constituído por pessoas que convivem intimamente em todos os seus momentos de vida e que tem a relação de pais-filhos/irmãos (entrando aí todas as constituições de família nuclear que podem existir). Eu tive meu núcleo familiar enquanto meus pais foram vivos e era formado por eles, eu e meus irmãos. Depois vieram os novos núcleos e eu não pertenço mais a nenhum deles.

E o que tem tudo isso a ver com o ser humano ser comunicação e eu ter aposto a isso a sincronicidade como precisando existir, ainda que não por todo o tempo?

Tudo isso tem a ver com uma necessidade pessoal de apreender o que estava intuindo sem muita clareza e que precisei escrever para me organizar interiormente, como digo que sempre foi um dos motivos básicos das minhas escrituras. Colocar os pontos nos iis do que sinto e penso.

A quarentena, que extinguiu o meu movimento de ida ao outro de forma presencial, que me acentuou o cuidado de não interromper os outros em seus afazeres, com ligações online, já que todos estão tão envoltos na vida familiar intensificada, me pôs numa absoluta assincronia de comunicação com todos. E eu me esvaziei em minha humanidade, em meu sentimento de ser humano. Mesmo não sendo uma pessoa muito sociável, eu sempre precisei estar em comunicação em mão dupla, como costumo dizer. Mas, por ser só e morar só, faltava eu falar da sincronicidade como algo importante para mim. E, se por várias razões esse comunicação real havia se tornado mais escassa com os anos, a quarentena firmou o zero absoluto para algo que faz a gente se sentir mais viva.

E vou agora procurar uma saída para tal dificuldade. Terá de ser em outra dimensão existencial, pois a assincronia continuará a ser a engenharia da via de mão dupla, essa sim, condição necessária para toda comunicação existir.

===

PS 1. Hoje, dia 22 de junho, levantei depois de uma noite bem dormida. O remédio da busca de me enxergar por dentro fez efeito. Desde o início da quarentena, que para mim entra hoje na décima-quinta semana, anteontem foi a primeira vez em que tive o sono afetado e isso me preocupou. Mesmo com a descoberta de que gosto bem mais de minha companhia do que pensava, conviver mais das 24 horas seria um exagero… rsrsrs…

PS 2. Mesmo sendo repetitiva, trago o texto de Milan Kundera que eu venero:

“Todas as línguas derivadas do latim formam a palavra “compaixão” com o prefixo com – e a raiz passio, que originariamente significa “sofrimento”. Em outras línguas, por exemplo em tcheco, em polonês, em alemão, em sueco, essa palavra se traduz por um substantivo formado com um prefixo equivalente seguido da palavra “sentimento” (em tcheco: soucit; em polonês: wspol-czucie; em alemão: Mitgefühl; em sueco: med-känsla).

Nas línguas derivadas do latim, a palavra compaixão significa que não se pode olhar o sofrimento do próximo com o coração frio, em outras palavras: sentimos simpatia por quem sofre. Uma outra palavra que tem mais ou menos o mesmo significado: piedade ( em inglês pity, em italiano pietà, etc.), sugere uma espécie de indulgência em relação ao ser que sofre. Ter piedade de uma mulher significa sentir-se mais favorecido do que ela, é inclinar-se, abaixar-se até ela.

É por isso que a palavra compaixão inspira, em geral, desconfiança; designa um sentimento considerado de segunda ordem que não tem muito a ver com o amor. Amar alguém por compaixão não é amar de verdade.

Nas línguas que formam a palavra compaixão não com a raiz “passio: sofrimento”, mas com o substantivo “sentimento”, a palavra é empregada mais ou menos no mesmo sentido, mas dificilmente se pode dizer que ela designa um sentimento mau ou medíocre. A força secreta de sua etimologia banha a palavra com uma outra luz e lhe dá um sentido mais amplo: ter compaixão (co-sentimento) é poder viver com alguém sua infelicidade, mas é também sentir com esse alguém qualquer outra emoção: alegria, angústia, felicidade, dor. Essa compaixão (no sentido de soucit, wspol-czucie, Mitgefühl, med-känsla) designa, portanto, a mais alta capacidade de imaginação afetiva  – a arte da telepatia das emoções. Na hierarquia dos sentimentos, é o sentimento supremo.”

(KUNDERA, Milan. A Insustentável Leveza do Ser, p.25) (grifos meus)

PS 3. Do fundo do baú, epígrafe do meu relatório de estágio em psicologia:

Solidão é uma condição da vida humana, uma experiência de humano que capacita o indivíduo a sustar, entender e aprofundar a sua humanidade. O homem é em última instância e para sempre sozinho, quer viva na doença ou no isolamento, quer sinta a ausência de alguém amado, quer experiencie o júbilo penetrante de uma criação vitoriosa. Acredito ser necessário que toda pessoa reconheça sua solidão, que se torne intensamente cônscia de que, em última instância, o homem é só  – terrivelmente, completamente só. Esforços para superar ou escapar da experiência existencial da solidão podem resultar apenas em auto-alienação. Quando o homem é removido de uma verdade fundamental da vida, quando ele é bem sucedido em evadir-se e negar a terrível solidão da existência individual, ele fecha para si uma estrada significativa do seu próprio crescimento pessoal.  

(Prefácio do livro Loneliness de Clark Moustakas)

Data da Postagem: 21 de jun de 2020

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Um novo amanhecer

01/06/2020

Alimento da alma em 01.06.2020

Sinto muito, perdi a voz em 10 semanas calada… rsrsrs… e estou repetitiva nas imagens… um grande abraço

Data da Postagem: 01 de jun de 2020

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A aceitação do paradoxo

24/05/2020

La ventana abierta (1921) – Juan Gris

Eu sempre me senti minúscula face ao conhecimento existente em tantas áreas e sobre tantas coisas interessantes. E sempre tive muita admiração pelos eruditos que dominam um vasto conhecimento, devidamente apropriado por reflexões pessoais. Mas, evidentemente, eles estão para além da minha condição intelectual, em distância não passível de mensuração.

No patamar da medianidade em que me reconheço, sempre contei com um excelente raciocínio – sem falsa modéstia – e uma péssima memória, um divórcio que sempre me impediu de saber o que sei, já que por vezes há o salvamento de uma nova aprendizagem que, já ao nascer, cai nas profundezas dos neurônios embaralhados mais ainda por uma condição de DDA. E eis que, ao ter no pensamento um certo tema, como se fosse usada a isca de um pescador bom de peixes, independentemente do meu controle, de lá emergem conhecimentos que se conectam com aquilo que tenho na mente. E isso muitas vezes é surpresa para mim mesma. Ocorria muito com o uso de palavras. Após eu escrever, ia verificar o significado de algumas delas porque não era consciente de que as conhecia. E, no entanto, estavam bem adequadas na inserção do que dizia. Ocorria também em raciocínios mais complexos, o que me valia a possibilidade de caminhar na minha estrada mediana multifacetada, mesmo com os percalços da ineficiente memória evocativa.

A minha curiosidade sobre o novo se estende a várias dimensões da vida humana e isso sempre teve um lado positivo – o prazer das descobertas, a realçar as cores da vida – e um lado negativo – a caminhada meio perdida entre tantos despertares de interesse ao longo do meu percurso.

E agora eu estou me deparando com um paradoxo. Nunca esqueço Winniccott ao falar em paradoxo. Com ele aprendi a riqueza de aceitar o caminhar com algo aceito, tolerado e jamais resolvido.

2020: estamos no turbilhão da pandemia do coronavírus.

E, na vivência da quarentena, criou-se um paradoxo: por não estarmos com acesso ao mundo de fora, o mundo de fora se torna acessível através da tecnologia da informação numa dimensão jamais anteriormente vivida, agora ocupando espaço vital na reordenação da vida de todos no nosso planeta.

E quando falo todos, não ignoro que a desigualdade social, principalmente em países como o nosso, que sempre manteve por interesse de poucos o fosso gigantesco de distância entre os mais pobres e os mais ricos, torna muito diferente a possibilidade de uso dessa tecnologia. Mas, ainda assim, ela tem se expandido até nesse extrato mais desfavorecido da população.

Se, inicialmente, havia em mim a ânsia de saber das novidades anunciadas para que o tempo em casa fosse ocupado com atividades prazerosas – artes, turismo visitado à distância, leituras diversas e leves como crônicas e outras – e, também, com as novidades necessárias – noticiários, jornalismo crítico, etc. – com o decorrer das dez semanas em que tenho estado no mundo de dentro da minha casa, comecei a me afogar na minha pequenez e sentir o contraditório do excesso na falta.

Não é somente o fato do dia de 24 horas ter com contar com tarefas inusuais antes da pandemia, como todos os afazeres domésticos; nem tampouco o fato de que vivemos sob um estresse inevitável para quem está em sua normalidade de funcionamento psicológico, dada a realidade da situação de risco e efeitos dos cuidados tomados, inclusive o isolamento social, e isso afetar a forma como lidamos com o tempo; nem ainda o fato de que as horas, dentro de nosso espaço, já se distribuíam entre estudos (no meu caso, uma tábua de salvação: um curso online na PUCRS desde julho de 2019), leituras e filmes, por exemplo.

E se não estou incluindo o tempo que temos de sociabilidade à distância, isso se deve a estar refletindo apenas sobre o surgimento na minha vida do paradoxo relativo ao mundo de produção humana para satisfação estética e cognitiva estar enormemente acessível – pela disponibilidade maior oferecida pelos meios produtores – e inacessível pela minha incapacidade, tanto cognitiva como emocional, de absorver a todos os que despertam interesse.

Talvez eu tenha querido batizar com uma palavra mais bela – paradoxo – o que é apenas o meu limite. O mundo de fora em falta por contato direto, trazido em excesso para o mundo de dentro por canais indiretos, talvez não constitua com isso um paradoxo. Talvez seja o anúncio de uma nova realidade, que será remodelada com a força de tal mudança.

Lidar com o meu limite pessoal é o que preciso aceitar, tolerar sem resolver, e simplesmente conviver nessa quarentena.

Data da Postagem: 24 de Mai de 2020

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Na quarentena: ontem e hoje

16/05/2020

 

 

 

 

 

 

Em 15.05.2020, enviei para alguns amigos a mensagem e o link seguintes:

Minha produção artística de hoje [vídeo que continua a foto acima]:

https://drive.google.com/file/d/12TYR29rcreJVT5zD0As_pAk4iuITscYj/view?usp=sharing

 

E hoje, enviei outra mensagem, que foi:

 

 

 

 

 

 

 

 

Voltei.

E o céu chorou por mim.

Quando meu sobrinho tinha, se não me engano, entre 4 e 5 anos de idade, pegou hepatite e meu irmão o levou para ficar na casa de minha mãe, sua avó. Ficou num quarto, sozinho, deitadinho numa cama baixinha, com uma televisão à frente. Ele não sentia nada, como acontece com essa doença, mas tinha que ter repouso absoluto. Só levantava para ir ao banheiro e claro que isso era uma situação muito penosa para uma criança. Um dia em que ele ensaiou dar um gritinho sem ter nem por quê, eu disse que ele podia gritar, se quisesse. E ele passou quase 15 minutos gritando, gritando, gritando… e aliviou a sua agonia!
Eu agora de manhã me lembrei dele nesse dia tão longínquo…

PS Meu grito durou o tempo que levei, aprendendo a montar o vídeo.

Data da Postagem: 16 de Mai de 2020

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Fim de semana em quarentena

20/04/2020

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[Foto obtida em Fernando Rocha destaque no Congresso Vida!]

 

Pensando na autorevelação que aconteceu nesses últimos dois dias do fim de semana em casa, eu me lembrei de um poema essencial – essa a palavra que, para mim, melhor diz o que ele significa – trazido por um amigo há muitos anos atrás:

 

QUALQUER  TEMPO

 

Qualquer tempo é tempo.

A hora mesma da morte

é hora de nascer.

 

Nenhum tempo é tempo

bastante para a ciência

de ver, rever.

 

Tempo, contratempo

anulam-se, mas o sonho

resta, de viver.

 

Carlos Drummond de Andrade

 

Sim, qualquer tempo é tempo…

E nesses dois dias em que me abati emocionalmente, sozinha em minha cela Solitária, eu me dei conta de que eu preciso apenas de mim mesma quando me deprimo existencialmente, quando desce o meu ânimo por algum motivo, ou até sem motivo, como acontece ao longo da vida. E isso é tão forte que eu não consigo acolher amigos para compartilharem o meu momento no seu ápice.

Já expressei muitas vezes que eu sempre confio no movimento de alternâncias na vida: fases boas, fases ruins vão se sucedendo e eu sempre aguardo com confiança que isso prossiga assim. Não falo, evidentemente, em relação a certas questões de saúde física quando o comprometimento claramente é irreversível. Ainda assim, há pequenos movimentos em que a dor e a ausência da dor podem se suceder, mesmo que o quadro não permita acreditar numa reversibilidade que traga a saúde de volta… até que a saída da dor é a despedida da vida…

Quando falo que preciso apenas de mim mesma nesses momentos não estou numa posição prepotente de prescindir dos outros para viver bem. Mas, essa fé humana, que é muito forte em mim, me sustenta no aguardo da mudança de fase a partir das forças de reação que também compõem essa fé. O meu sofrimento, a minha dor não passarão e não me farão levantar com forças outras senão as minhas próprias.

No entanto, eu preciso muito dos outros e talvez isso não fique tão visível porque eu preciso dos outros para estar bem, eu preciso dos outros para não entrar no sofrimento, para não experienciar a dor existencial da solidão, que se torna mais presente quanto mais a condição de viver sozinha se aguça, como está sendo na experiência atual de quarentena, por mais que eu consiga usufruir bem a solitude. Eu preciso dos outros que me aceitem como eu sou, sem esperar que gostem de todo o meu modo de ser. Mas, principalmente, eu preciso dos outros, não para cobrirem sua dificuldade de estar só ou para que eu não fique sozinha, mas que venham a mim por desejarem estar com quem eu sou e apreciarem o estar comigo de alguma forma.

Eu preciso dos outros para VIVER!

 

Data da Postagem: 20 de Abr de 2020

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A dimensão real

16/04/2020

 

 

 

 

 

 

 

Um comunicado, lido há pouco no grupo do condomínio sobre a necessidade de comunicação imediata aos síndicos por parte dos que, porventura, venham a se contaminar com o coronavirus, ativou a elaboração, já em andamento, da reflexão sobre o tema.

Se estamos numa pandemia em curso exponencial, sem que haja remédios preventivos nem com especificidade curativa para o vírus em questão, o que nos resta fazer para evitarmos entrar no rol das tristes estatísticas de quadros graves e até mesmos dos leves? Para mim, vale a orientação da OMS que tem sido exaustivamente propagada por aqueles que pensam em primeiro lugar no ser humano e no seu direito à vida.

No entanto, vou me reportar ao dizer de Ariano Suassuna*, com quem sempre me identifiquei de forma visceral no seguinte:

 

 

 

 

 

E por que trago isso ao falar do coronavirus e do mundo de cabeça para baixo em que estamos vivendo?

Para discorrer sobre a dissociação, muito frequente entre nós, entre os processos de crítica & autocrítica, o que favorece que façamos tudo aquilo que vemos o outro fazer e nele criticamos como comportamento inadequado, indesejável, errado mesmo do ponto de vista ético, enquanto usamos, ao fazer o mesmo, o amaciamento das racionalizações, a permitirem que a consciência seja apaziguada, porque a benevolência das autojustificativas, contrariando o nosso próprio discurso ao analisar o mundo e os outros, nos livra de uma autocrítica coerente.

E isso se constitui na ponte que quero fazer com a conclamação feita pela síndica e vice-síndica para que não fosse postergada a comunicação informativa de algum caso de coronavirus no condomínio.

Ora, isso nem deveria ser necessário se pararmos para pensar na obviedade do embasamento do pedido, qual seja, aprimorar as medidas de cuidado preventivo para não contaminação dos demais condôminos e dos funcionários que aqui trabalham. E por que se faz necessário? Por que precisa uma síndica e uma vice-síndica expressarem tal preocupação na forma de um pedido aos condôminos?

Acredito que seja pela real possibilidade de que venha a haver a omissão dessa informação!

Falta grave do ponto de vista dos que omitiriam? Se olharmos apenas pelo prisma da responsabilidade social com o outro, poderia ser pensado que sim. Mas, como eu gosto muito dos “Por quês?” para refletir sobre as coisas, eu passo para outro “Por quê?”.

Por que pessoas que são estruturadas com bom caráter, que têm características humanas de cordialidade, de solidariedade explicita muitas vezes, que não se construíram como pessoas agressivas, etc., seriam capazes de omitir tais informações – e vejam bem, omitir não é negar – até quando não teriam mais como deter que elas fossem trazidas à tona?

Na minha forma de ver isso se deveria ao medo da estigmatização que poderia advir por parte dos seus vizinhos.

Mas, como?! Esses seus vizinhos não estão a par dos cuidados a serem tomados para evitar a contaminação crescente? Eles não estão conscientes de que todos estamos sujeitos à possibilidade do contágio – a possibilidade já é em si uma realidade, dizia Lucien Goldmann; e se a ciência atua com probabilidade, isso não elimina que a baixíssima probabilidade se realize porque ainda é uma possibilidade – e que a melhor prevenção é a transparência sobre a realidade para que nossas ações sejam mais apropriadas para lidar com ela?

Se isso estiver claro para nós vizinhos, além de não nos deixarmos levar pelo preconceito – e aqui considero fundamental que haja uma coerência entre crítica e autocrítica, entre discurso e ação – a marcar agressivamente alguém doente com a rejeição, seríamos até capazes de ampliar nossa sensibilidade e solidariedade ao acolhermos de coração os que estivessem nessa condição.

Assim, complementando o apelo da síndica e vice-síndica, eu faço o meu aqui: sejamos realistas esperançosos, trabalhemos a desconstrução dos nossos preconceitos e nos aliemos aos laços humanos de apoio e solidariedade! Somente dessa maneira, criando condições propícias para que alguém que se contamine tenha tal espaço de liberdade, poderemos ser ajudados pela informação imediata e precisa da sua situação.

 

*  https://kdfrases.com/autor/ariano-suassuna

 

Data da Postagem: 16 de Abr de 2020

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Descobri minha inspiração para o antigo “Clube dos Viajantes Parados”…

11/04/2020

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

As revelações sobre a gente mesma surgem muitas vezes inesperadamente. Assim está sendo comigo agora, ao me dar conta da inspiração inconsciente para o nome dado ao grupo que criei há anos atrás: Clube dos Viajantes Parados. Eu enviava por email mensagens de arquivos de fotos – penso que eram em Power Point – sobre outros lugares do mundo, dessa maneira visitados sem que a gente ultrapassasse os muros de nossas casas. Era um prazer compartilhado com várias pessoas que queriam receber o que eu ia achando e coletando. E, ao escrever hoje sobre o meu apreço pelas paisagens, isso me lembrou o meu pai e sua pesquisa sobre as ilhas do mundo inteiro, o que foi falado no post anterior. Como disse lá, seu material, infelizmente, ficou perdido para nós. No entanto, trago o resgate de poucas anotações preservadas conosco, que mostram o seu interesse não apenas em fazer os contatos pelo rádio, mas em aprofundar o conhecimento sobre as ilhas. Cada contato realizado o levava ao levantamento da singularidade daquele lugar em muitos aspectos e isso  evoluiu para uma grande riqueza de informações ao longo de suas viagens parado. São expressão de alguém que tinha o gosto por aprender, que brincava, winnicottianamente falando, a partir da sua curiosidade sobre o que era novo para ele. Sem dúvida, tive sua influência em minha construção como pessoa. A minha Dissertação de Mestrado, com ele já falecido, teve como dedicatória: “Ao meu pai – sempre comigo – e à minha mãe, que me encantaram a infância com a magia de ´O Livro dos Porquês´”. E aí estão os registros do seu despertar para a viagem pelas ilhas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E a Terra era redonda para ele, como é redonda para mim…

 

Data da Postagem: 11 de Abr de 2020

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Em quarentena: O lado de fora dentro de mim

11/04/2020

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Hoje saí de novo para visitar o meu amigo, o Mar...

Não levei o celular e, por isso, não fiz fotos atualizadas, mas o percurso foi o mesmo do dia 02 de abril e assim vou mostrar por onde andei. Paisagens sempre alimentaram a minha alma. Talvez meu pai tenha deixado marcado em mim o seu gosto pelas paisagens em viagens do pensamento e em viagens por terra e por mares. Ele era radioamador e fez uma imensa pesquisa sobre ilhas em todos os continentes. Catalogava as ilhas com todos os dados que colhia em contatos feitos pelo rádio, e tinha um acervo enorme de ilhas, muitas praticamente desconhecidas, que ia descobrindo dessa forma. Passava tudo para fichas e seus arquivos, meticulosamente ordenados, dariam uma publicação muito interessante, caso ele não tivesse falecido precocemente, aos 68 anos de idade. Como nós não lidávamos com radioamadorismo, decidimos, em família, passar esse material, muito precioso para nós afetivamente falando, para um colega radioamador que disse que iria dar continuidade e organizar para publicação. No entanto, ele nunca voltou a fazer contato conosco e não sabemos o fim que deu ao imenso trabalho do meu pai. Claro que papai fez isso no tempo em que não contávamos com computador nem internet e que hoje teria sido bem diferente coletar tais informações. Mas, na época em que realizou sua pesquisa, ela foi de uma riqueza imensa que, infelizmente, se perdeu para nós também.

Mas, se há registros que não se perdem são os registros na alma. E, assim, paisagens sempre foram um alimento para mim. Falei nisso em https://imparidade.wordpress.com/2017/09/09/colecionadora-de-paisagens/, em https://imparidade.wordpress.com/que-venham-os-ladroes-de-paisagens/ e sempre tive isso como parte integrante de minhas andanças fora de casa.

Voltarei para falar sobre o momento atual. Deixo aqui nossas lindas paisagens como merecedoras de nossa atenção ontem, hoje e amanhã!

 

Data da Postagem: 11 de Abr de 2020

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Girassóis

18/03/2020

Sem palavras para o que vivemos, trago os girassóis para vocês. Que eles estejam como imagens presentes em nossas retinas e seu significado simbólico represente nossa confiança no tempo à nossa frente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Van Gogh – Vaso com 3 girassóis

 

Mas, tudo se transforma…

E uma corrente de palavras se formou e as palavras de Kitty O´Meara chegaram através da minha sobrinha Cecília, no grupo familiar de wa:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Data da Postagem: 18 de Mar de 2020

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