Ladra de mim mesma

05/07/2019

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Melancholy, Paul Gauguin

 

A perda do Presente é algo que me atinge dolorosamente. E isso ocorre frequentemente por eu não perceber o que está ao alcance dos meus sentidos que se apagam pela desatenção. A perda do Presente cria vazios na montagem do curso da vida pois não há Passado onde não houve Presente. São os relatos alheios que me fazem perceber o não vivido.

Sou ladra de mim mesma!

 

Trago um pouco da angústia incompreendida das vivências na condição de DDA borderline – Distúrbio do Déficit de Atenção – ao longo de praticamente toda uma vida, talvez mais para fazer as pazes com ela e dizer um adeus à recorrência da frase-título acima em minha mente, tal qual aconteceu com o forrar a cama todo dia (tema de post anterior), do que para ser ouvida no que digo.

Sem ser hiperativa e me organizando relativamente bem na vida e seus compromissos, acredito que forneci munição para que, ao falar no peso disso para mim, ouvisse sistematicamente de volta a pessoa dizer que também tinha distúrbio de atenção. Minimizar os efeitos disso numa vida pode levar a que, além deles, a pessoa se sinta ocupando um lugar de vitimização que não é o sentimento que procura transmitir, como é o meu caso, quando procuro falar das perdas presentes no ser ladra de mim mesma.

Distúrbio de atenção não significa falta de atenção, mas sim, labilidade de atenção, o que muitos ignoram. Assim, posso variar da hipo à hiperconcentração da atenção em algum objeto, que também pode ser constituído pelos pensamentos interiores a provocarem um desligamento do mundo ao redor.

É comum a gente ao longo da vida ter dificuldade em evocar algo do passado. As falhas de memória nos impedem de reviver na lembrança um momento anterior e isso fica como uma perda de algo que foi vivido.

A perda do Presente, no entanto, é algo que me atinge dolorosamente. E isso ocorre frequentemente por eu não perceber o que está ao alcance dos meus sentidos que se apagam pela desatenção. A perda do Presente cria vazios na montagem do curso da vida pois não há Passado onde não houve Presente. São os relatos alheios que me fazem perceber o não vivido.

Sou ladra de mim mesma!

E, assim, vivi a infância com uma sensação de vagueza que eu não entendia de onde provinha, como se houvesse alguma coisa a mais que eu nunca conseguia atingir. E, assim, vivi a adolescência com a mesma sensação de não dar conta do mundo, ainda que do ponto de vista escolar houvesse ótimos resultados. E, assim, vivi a vida adulta, sem me apropriar do que estava ao alcance dos olhos e dos ouvidos. E, agora, tento me despedir de uma angústia inútil, trazendo isso para o papel.

Tudo tem seu lugar na história. Nasci em 1948 e a condição de DDA não fazia parte do enfoque médico quando eu era criança e nem mesmo um longo tempo depois. Somente aos 59 anos de idade foi possível ter tido o reconhecimento de tal condição em mim. Ainda mais que sem hiperatividade* fica bem mais difícil isso vir à tona. De uma forma cristalina, vários episódios na minha vida e várias características minhas saltaram como sendo constituintes de uma situação – no meu caso, não clássica – de DDA, que poderia ser vista como borderline.

A maior parte da minha vida passei num custoso esforço para dar conta do que a vida exige de todos nós, porque prestar atenção é imprescindível ao bom desempenho dos compromissos pessoais e de trabalho e prestar atenção para mim é algo a me exaurir muito em termos de energia vital. Desenvolvi uma superorganização ao entrar na vida adulta, bem comum em pessoas com DDA, como estratégia inconsciente (dado que ainda desconhecia a minha condição e tinha sido desorganizada até então), uma forma de lidar com a desatenção de base. Mas, nunca pude ter leveza. Os meus Presentes, que compõem o meu processo de vida e estão na minha vida como minha história passada, sempre foram vividos com o peso do cansaço que o prestar atenção voluntariamente (e, muitas vezes, de forma hiperconcentrada) me trazia.

Espero que escrever me atualize e que fique para trás não apenas o sentimento, mas também as tentativas de compartilhar o sentimento de perda que me levou à frase como cantilena para mim: eu sou ladra de mim mesma!

 

*   Com hiperatividade é chamado de Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH)

 

Data da Postagem: 05 de Jul de 2019

Dia a dia … ou… Arte no gerúndio: Vivendo

 

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Os outros (suas marcas) em mim… 01

16/06/2019

 

 

 

 

 

 

KANDISNKY

 

 

Georg Wilhelm Friedrich Hegel nasceu em Stuttgart em 1770. Seu pai era um funcionário subalterno no departamento de finanças do Estado de Würtemberg; e o próprio Hegel cresceu com os pacientes e metódicos hábitos daqueles funcionários públicos cuja modesta eficiência tem dado à Alemanha as cidades mais bem governadas do mundo. O jovem foi um estudante incansável: fazia análises completas de todos os livros importantes que lia e copiava longos trechos. A verdadeira cultura, dizia ele, deve começar com uma decidida modéstia;…

DURANT, Will. A História da Filosofia. SP: Nova Cultural, 1996.

 

A título de esclarecimento:

Ao transcrever o texto acima no programa de uma disciplina, eu acrescentei para a turma:

Caros alunos, se um GÊNIO, na época em que o trabalho era manuscrito e, portanto, SEM O NOSSO MÁGICO COMPUTER, fazia isso de copiar até os suspiros, por que nós, COM computador e SEM a sua genialidade não poderíamos fazê-lo??? Acredito que, para alguns, é uma valiosa forma de organizar o desenvolvimento de uma pesquisa, embora não seja imprescindível e tenha a ver com características idiossincráticas. Estou sendo advogada em causa própria devido aos rótulos que costumam imperar no nosso meio PSI…

 

 

Queres penetrar no infinito? Avança por todos os lados no finito.

GOETHE

 

 

Assim, não escutem as palavras, escutem apenas o que a voz lhes conta, o que os movimentos contam, o que a postura conta, o que a imagem conta. Se você tem ouvidos, então sabe tudo sobre a outra pessoa. Você não precisa escutar o que a pessoa diz; escute os sons. Per sona– ‘através dos sons’.

FRITZ PERLS

 

 

Do macro ao micro

xxx

Uma organização social nunca desaparece antes que se desenvolvam todas as forças produtivas que ela é capaz de conter; nunca relações de produção novas e superiores se lhes substituem antes que as condições de existência dessa relações se produzam no próprio seio da velha sociedade. É por isso que a humanidade só levanta os problemas que é capaz de resolver e assim, numa observação atenta, descobrir-se-á que o próprio problema só surgiu quando as condições materiais para o resolver já existiam ou estavam, pelo menos, em vias de aparecer.”

KARL MARX, Prefácio da Crítica da Economia Política

 

Como disse Vico, a história humana se distingue da história natural pelo fato que fizemos uma e não a outra.

KARL MARX,O Capital, L.I, v.1, p.425

 

…, parece-nos que o conceito fundamental em ciências históricas e sociais é o da consciência possível,

GOLDMANN, Ciências Humanas e Filosofia, p.94

 

A possibilidade não é a realidade, mas é, também ela, uma realidade: que o homem possa ou não possa fazer determinada coisa, isto tem importância na valorização daquilo que realmente se faz. Possibilidade quer dizer ‘liberdade’. A medida de liberdade entra na definição do homem.

GRAMSCI, Concepção Dialética da História, p.47

 

O homem deve ser concebido como um bloco histórico de elementos puramente subjetivos e individuais e de elementos de massa – objetivos ou materiais – com os quais o indivíduo está em relação ativa.

GRAMSCI, Concepção Dialética da História, p.47

xxx

 

 

Onde, quando e como? Conservam-se mudos os deuses: contente-se com porque e não peça o por que. (p.9)

Queres penetrar no infinito? Avança por todos os lados no finito. (p.10)

A quem offerece a felicidade sua palma mais bella? Ao homem que faz seu trabalho com alegria e que desfructa o que fez. (p.20)

Eu, egoista! Sei melhor me conduzir. O invejoso, eis o egoista: e quaesquer que sejam as veredas que eu tenha corrido, não me achastes nunca na da inveja. (p.21)

 

GOETHE, Pensamentos Philosphicos, Traducção de Miguel Costa Filho, Collecção Benjamim Costallat, Rio, 1932:

 

 

 

A ciência não acalenta a alma humana; a poesia e a música sim.

CARLOS CHAGAS FILHO, GLOBO CIÊNCIA, 05.08.97

 

 

Solidão é uma condição da vida humana, uma experiência de humano que capacita o indivíduo a sustar, entender e aprofundar a sua humanidade. O homem é em última instância e para sempre sozinho, quer viva na doença ou no isolamento, quer sinta a ausência de alguém amado, quer experiencie o júbilo penetrante de uma criação vitoriosa. Acredito ser necessário que toda pessoa reconheça sua solidão, que se torne intensamente cônscia de que, em última instância, o homem é só – terrivelmente, completamente só. Esforços para superar ou escapar da experiência existencial da solidão podem resultar apenas em autoalienação. Quando o homem é removido de uma verdade fundamental da vida, quando ele é bem sucedido em evadir-se e negar a terrível solidão da existência individual, ele fecha para si uma estrada significativa do seu próprio crescimento pessoal.

CLARK MOUSTAKAS, Prefácio do livro Loneliness

 

 

Il faut contempler,

il faut penser:

qui pense peu se

trompe beaucoup.

DA VINCI

 

 

O mistério da vida me causa a mais forte emoção, é o sentimento que suscita a beleza e a verdade, cria a arte e a ciência. Se alguém não conhece esta sensação ou não pode mais experimentar espanto ou surpresa, já é um morto-vivo e seus olhos se cegaram.

ALBERT EINSTEIN, Trecho de Como Vejo o Mundo

 

 

Amar tem história e geografia: tem tempo e espaço. A geografia do outro é o seu espaço onde é preciso a gente descobrir-se e pedir licença para entrar. Quem não é capaz de respeitar o espaço do outro cria as condições da ruptura…

Amar é saber ser leve…

O mal é que tudo tem atrás de si um discurso de cultura. É muito difícil amar com simplicidade. Pesam-me as teorias e tratados por cima de cada beijo…

ALÇADA BATISTA, Os Nós e os Laços

 

 

Para Tereza, o livro era o sinal de reconhecimento de uma fraternidade secreta.

KUNDERA, Milan, A Insustentável Leveza do Ser, p.53

 

 

Todas as línguas derivadas do latim formam a palavra “compaixão” com o prefixo com– e a raiz passio, que originariamente significa “sofrimento”. Em outras línguas, por exemplo em tcheco, em polonês, em alemão, em sueco, essa palavra se traduz por um substantivo formado com um prefixo equivalente seguido da palavra “sentimento” (em tcheco: soucit; em polonês: wspol-czucie; em alemão: Mitgefühl; em sueco: med-känsla).

Nas línguas derivadas do latim, a palavra compaixão significa que não se pode olhar o sofrimento do próximo com o coração frio, em outras palavras: sentimos simpatia por quem sofre. Uma outra palavra que tem mais ou menos o mesmo significado: piedade ( em inglês pity, em italiano pietà, etc.), sugere uma espécie de indulgência em relação ao ser que sofre. Ter piedade de uma mulher significa sentir-se mais favorecido do que ela, é inclinar-se, abaixar-se até ela.

É por isso que a palavra compaixão inspira, em geral, desconfiança; designa um sentimento considerado de segunda ordem que não tem muito a ver com o amor. Amar alguém por compaixão não é amar de verdade.

Nas línguas que formam a palavra compaixão não com a raiz “passio: sofrimento”, mas com o substantivo “sentimento”, a palavra é empregada mais ou menos no mesmo sentido, mas dificilmente se pode dizer que ela designa um sentimento mau ou medíocre. A força secreta de sua etimologia banha a palavra com uma outra luz e lhe dá um sentido mais amplo: ter compaixão (co-sentimento) é poder viver com alguém sua infelicidade, mas é também sentir com esse alguém qualquer outra emoção: alegria, angústia, felicidade, dor. Essa compaixão (no sentido de soucit, wspol-czucie, Mitgefühl, med-känsla) designa, portanto, a mais alta capacidade de imaginação afetiva  – a arte da telepatia das emoções. Na hierarquia dos sentimentos, é o sentimento supremo.

KUNDERA, Milan, A Insustentável Leveza do Ser, p.25

 

 

o homem criativo é fundamentalmente, por definição, um não especialista. (p. 27)

 

… Criatividade é sinônimo de SOLUÇÃO DE PROBLEMA. Ela só existe, ela só se exprime, face a um problema real, como aplicação para um problema real.

A criatividade parte de um problema, na maioria esmagadora dos casos. Ou então, vai ao problema em casos excepcionais. O problema, contudo, é sempre, invariavelmente, componente ativo, verdadeira razão de ser de tudo o que se compreende sob o título ‘criatividade’. Simplesmente, não há criatividade sem problema referente.

Ela parte de um problema, em todos os casos clássicos, como aquele de congelar a água de um buraco para que a máquina possa descer até o fundo. Esse sentido, problema-solução, é o que se observa talvez em 99% dos casos, inclusive quando se apela à criatividade face aos problemas de comunicação surgidos na elaboração de peças de propaganda numa agência.

Por outro lado, pode suceder alguém alertado por especial conjunção de fatores, ou de funções, ou de ideias, e, por extensão, dar a tal descoberta uma aplicação prática. É o sentido solução-problema, que, embora muito mais raro, deve ser igualmente praticado e desenvolvido pelo homem criativo. (p.69)

 

Uma invenção dessas que melhoram nossa vida em apenas um pequeno detalhe (gagdet), e que surgem todos os dias nas lojas, principalmente na América e na Europa, sempre no surpreende, chega a nos alegrar, a nos maravilhar, e invariavelmente nos indagamos: ‘como alguém pode pensar nisso?’ A resposta é evidente: ‘pensando nisso’. (p.72)

 

BARRETO, Roberto Menna. Criatividade em Propaganda. São Paulo: Summus, 1982.

 

 

Sob o familiar, descubram o insólito.

Sob o cotidiano, desvelem o inexplicável.

Que tudo que é considerado habitual

provoque inquietação.

Na regra, descubram o abuso. E sempre que

o abuso for encontrado, encontrem o remédio

BERTOLD BRECHT

 

 

A imaginação é muito mais importante do que o conhecimento.

ALBERT EINSTEIN

 

 

Eu, egoísta! Sei melhor me conduzir. O invejoso, eis o egoísta: e quaisquer que sejam as veredas que eu tenha corrido, não me achastes nunca na da inveja.

GOETHE

 

 

BIENAL DE SÃO PAULO – 96

 

As coisas assim a gente mesmo não pega nem abarca. Cabem é no brilho da noite. Aragem do sagrado. Absolutas estrelas.

Grande Sertão Veredas

GUIMARÃES ROSA

 

O imaterial é a realidade sensível do universo.

A arte é o conhecimento sensível do imaterial.

JESUS SOLO

 

 

… o público que lhe interessava, que gostaria de conquistar, não era a massa de desconhecidos que enche de prazer o escritor de hoje, mas o pequeno grupo daqueles que ele poderia conhecer e estimar pessoalmente.

MILAN KUNDERA, A lentidão, p.44

 

 

A dimensão humana é poliédrica, capaz de iluminações conforme o real cambiante. Jamais se auto-compreenderá quem não se sinta e saiba pleno, intenso, variado, repleto de mundos só seus, contraditórios na aparência, mas ligados pela harmonia oculta das várias verdades sensíveis de que vive e se alimenta o seu complexo interior.

Somos paralelas encantadas, um feixe de luz, não um raio. Cada raio (vivência) tem uma cor e uma vontade. Partem todos do mesmo ponto e um dia se encontrarão numa dimensão una de integralidade. Mas o percurso é feito de paralelas. Elas carregam a complexidade, riqueza maior de nossas vidas, parte de uma trajetória em eterna expansão embora dirigindo-se a uma radiosa concentração de energia.

ARTUR DA TÁVOLA, Epígrafe em  Amor A Sim Mesmo

 

 

Somos, portanto, algo cambiante e algo permanente. Somos algo essencialmente misterioso. Que seria de cada um de nós sem a memória? É uma memória em grande parte feita de ruído, mas que é essencial. Não é necessário que eu recorde, por exemplo, para ser quem sou, que vivi em Palermo, em Adrogué, em Genebra, ou na Espanha. Ao mesmo tempo, tenho que sentir que não sou o que fui nesses lugares, que sou outro. Este, o problema que nunca poderemos resolver, o problema da identidade cambiante. E talvez a própria palavra “cambiante” seja suficiente. Porque se falamos que algo está cambiando, não estamos dizendo que algo é substituído por outra coisa. Dizemos: “A planta cresce”. Não queremos dizer, com isto, que uma pequena planta deva ser substituída por uma maior. Queremos dizer que essa planta se transforma em outra coisa. Trata-se, pois, da idéia da permanência no fugaz.

BORGES, Jorge Luís. O Tempo. In: Cinco Visões Pessoais. Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1996, p. 48.

 

 

… Pode existir uma objetividade extra-histórica e extra-humana? Mas, quem julgará esta objetividade?

GRAMSCI, 1987, p.169

 

… A formulação de Engels, segundo a qual ‘a unidade do mundo consiste em sua materialidade, demonstrada… pelo longo e trabalhoso desenvolvimento da filosofia e das ciências naturais’, contém precisamente o germe da concepção justa, já que se recorre à história e ao homem para demonstrar a realidade objetiva.Objetivo significa sempre ‘humanamente objetivo’, o que pode corresponder exatamente a ‘historicamente subjetivo’, isto é, objetivo significaria ‘universal subjetivo’. O homem conhece objetivamente na medida em que o conhecimento é real para todo o gênero humano, historicamente unificado em um sistema cultural unitário; mas esse processo de unificação histórica ocorre com o desaparecimento das contradições internas que dilaceram a sociedade humana, contradições que são a condição de formação de grupos e do nascimento das ideologias não universal-concretas, mas que envelhecem imediatamente, graças à origem prática da sua substância. (…) O que os idealistas chamam de ‘espírito’ não é um ponto de partida, mas de chegada: o conjunto de superestruturas em devenir para a unificação concreta e objetivamente universal, e não mais um pressuposto unitário, etc.

GRAMSCI, 1987, p.170

 

 

POR MUITO TEMPO achei que a ausência é falta.

E, lastimava, ignorante, a falta.

Hoje não a lastimo.

Não há falta na ausência.

 

A ausência é um estar em mim.

E sinto-a, branca, tão pegada, tão aconchegada nos meus braços,

que rio e danço e invento exclamações alegres,

porque a ausência, essa ausência assimilada,

ninguém a rouba mais de mim.

DRUMMOND DE ANDRADE, 1967

 

 

O problema não é inventar. É ser

inventado hora após hora e nunca ficar

pronta nossa edição convincente.

DRUMMOND DE ANDRADE, O Corpo

 

 

Arte não é um terreno encantado, marginal ou mágico.

Arte é uma forma de vida e uma concepção de mundo.

ARTUR DA TÁVOLA

 

 

Na discussão científica, (…), demonstra ser mais ‘avançado’ quem se coloca do ponto de vista segundo o qual o adversário pode expressar uma exigência que deva ser incorporada, ainda que como um momento subordinado, na sua própria construção. Compreender e valorizar com realismo a posição e as razões do adversário (e o adversário é, talvez, todo o pensamento passado) significa justamente estar liberto da prisão das ideologias (no sentido pejorativo, de cego fanatismo ideológico), isto é, significa colocar-se em um ponto de vista ‘crítico’, o único fecundo na pesquisa científica.

GRAMSCI, 1987, p.31

 

 

Quando olho, sou visto, logo existo. Agora tenho condições de olhar e ver.

Agora olho criativamente, e o que eu apercebo também percebo. Na verdade,

tomo cuidado para não ver o que não existe para ser visto.

WINNICOTT, 1967

 

 

Recomendações da Mamãe:

1 – Não guardes ódio de ninguém

2 – Compadece-te dos pobres

3 – Cala os defeitos dos outros

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

 

 

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos tem sido campeoes em tudo.

 

Quem me dera ouvir de alguem a voz humana

Que contasse, nao uma violencia, mas uma cobardia!

 

Arre, estou farto de semideus!

Onde eh que ha gente no mundo?

 

Entao sou so eu que eh vil e erroneo nesta terra?

 

(4-10-1930)

 

FERNANDO PESSOA, Poema em Linha Reta, In “O Eu Profundo e Os Outros Eus”, Nova Fronteira, 1997

 

 

Dize: ‘por las verdades se pierden los amigos,

E por las non dezir se fazen desamigos’:

Anssy entendet sano los proverbios antiguos

E nunca vos creades loores de enemigos.

ARCIPRESTE DE HITA, Libro de Buen Amor, século XIV

 

 

Há três classes de leitores: o primeiro, que goza sem julgamento, o terceiro que julga sem gozar e o intermédio que julga gozando ou goza julgando: é o que propriamente recria a obra de arte.

GOETHE, 1819

 

 

… eu compreendia tudo luminosamente e não compreendia absolutamente nada. Compreender é modificar-se, ir além de si mesmo…

SARTRE

 

 

Liberdade, palavra que o sonho humano alimenta, e não há ninguém que explique, ninguém que não entenda.

CECÍLIA MEIRELES

 

Data da Postagem: 16 de Jun de 2019

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Para não dizerem que não falei das flores…

02/05/2019

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Arranjo De Flores Vaso Azul Frutas – Cézanne

 

Um dia eu criei esse blog para compartilhar minhas escrituras se se constituísse alguma paridade pelos olhos de algum visitante. Continuando direcionado para isso, vou trazer hoje, no entanto, a exceção que toda regra merece ter. E isso porque recebi de uma amiga o seu momento de emoções e sentimentos bem traduzido em palavras sensíveis, ela que é, entre as pessoas que conheço, uma das mais iluminadas pela chama da paixão ao se enrolar na colcha da vida até em seus mínimos retalhos. Acompanhei o que escreveu com a força da emoção amplificada por serem pessoas queridas por mim também.

Com sua permissão, trago para vocês uma vivência que é singular, mas revela um universal possível em todos nós. E pedi que criasse o seu próprio blog sem a pretensão de fazer literatura, tal como eu faço aqui. Eu seria uma visitante, com certeza. Como já falei a meu respeito, ela também usa a escritura como forma de organização interna, pelo que conversamos. Mas, não é (ainda, espero…) algo que ela pense fazer. Assim, aqui está:

 

Flores no centro da mesa

Sim, vai dar certo! Diz alguém por telefone, em seguida, uma outra pessoa repete a mesma frase numa rápida mensagem escrita; outra ainda, após a visita demorada se despede com um forte abraço acompanhado das últimas palavras: vai dar certo!  Nos últimos dias, as nossas vidas tem sido acalantadas por essa expressão: vai dar certo! Após a tomada de consciência de uma doença grave que acometeu um membro da nossa família, os amigos e amigas mostraram, mais uma vez, a importância do seu papel nas nossas vidas e a família extensa o seu valor inestimável. Essa saudação tem sido repetida incansavelmente e para nós é sentida como um alento, um abraço, uma esperança sintetizada em três palavras: vai dar certo! Também sinto que outras atitudes têm revelado um desejo de recolocar a vida no seu “devido” lugar e livrar-se de uma vez por todas das angústias frente ao “desconhecido”. O câncer, uma doença já tão presente nas nossas vidas, ainda nos assombra. Chega sem pedir licença e se instala ameaçando a vida daqueles que amamos.

Recolocar a nossa existência numa normalidade parece ser o desejo daqueles que ofertam o seu ombro, a sua proteção e solidariedade. Os combinados vão acontecendo em frases curtas que prometem um curso a ser retomado: “Em breve estaremos tomando um café no Cidade Jardim”; “Nos veremos para discutir o texto final”; “Vamos combinar um jantar aqui em casa”…

O desejo de ter de volta o jarro de flores no centro da mesa anunciando que está tudo bem, tudo tranquilo, em seu devido lugar é provavelmente uma tentativa de tanger para longe qualquer ameaça que leve o nosso familiar ou o amigo querido. Alguns não sossegam e ligam todos os dias, outros, bem engraçados, até querem interferir na própria terapêutica adotada.

É um momento de reflexão para todos que estão perto da gente. Pensar sobre a vida e o morrer, sobre a amizade e os amigos, sobre si mesmo e a própria finitude. Sim, somos finitos e não sabemos lidar com essa dimensão da vida. Ao meu ver, o enfermo parece o mais tranquilo e afirma: “A vida é como é” ou “Não há que se dramatizar qualquer aspecto da existência”. Eu, deste lugar, fico aqui a pensar. Não sei sentir assim e me pego desejando a ilusão da vida em linha reta e uma vontade enorme de colocar um jarro de flores no centro da mesa anunciando a volta de uma certa normalidade.

Sheylla Maria de M. Rodrigues.

Data da Postagem: 2 de Mai de 2019

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O tempo, essa incógnita…

18/04/2019

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Relógio – Marc Chagall 1914

 

Eu morava no Rio e andava de ônibus na minha vida de estudante sem carro. Estava parada no meio de um congestionamento sem fim e me preocupava com a lentidão com que nos deslocávamos, pois estava indo para um compromisso com hora marcada. A ansiedade começou a me tomar porque era importante o que tinha para fazer e o ônibus não saía quase do lugar. Até que parei de pensar no compromisso, tomada de repente pela consciência do paradoxo que vivia em relação ao tempo: eu o sentia passando ali extremamente lento e extremamente rápido. Como era possível?!… Como algo poderia ser sentido ao mesmo tempo como sendo algo tão oposto?!… O tempo para mim estava se esvaindo como um raio porque o compromisso se apresentava como ficando velozmente próximo sem eu poder alcançá-lo, e o tempo para mim passava como o andar de uma tartaruga porque o trânsito estava de um jeito tal que quase não saíamos do lugar. Eu me entretive tanto com tal vivência paradoxal que deixei de pensar no compromisso, tomada pela perplexidade da questão para mim, até que senti de novo o ônibus se deslocando normalmente e tudo voltou ao normal. Menos eu, que carreguei comigo a questão intrigante e sem resposta até que fui apaziguada, não importa se certo ou errado, pelo que me respondeu anos depois um professor de filosofia quando o interroguei sobre isso: o tempo é uma categoria psicológica!

O fato é que até hoje a vivência do sentimento do tempo continua sendo algo que me intriga. E assim vivi, por vezes, a sensação do tempo haver parado, como se o presente se tornasse infinito e não houvesse nem passado nem futuro… em bons e em maus momentos, como tentei expressar em (…)SANTORINI – dei a mão a Deus e Ele me segurou um pedacinho: tocava uma música clássica num Café onde estávamos eu e minha amiga (a outra tinha resolvido ir no tour que dispensamos para andarmos simplesmente pela cidadezinha em que aportamos), olhando lá embaixo o azul penetrantemente lindo do mar, pontilhado de navios absolutamente brancos e, de repente, as gaivotas resolveram que iam dançar e fizeram com que essa imagem parasse a vida no ar, por um instante.(…) e em (…)Na etérea luminosidade / Que nos revelou / Um ao outro. / O tempo perdeu os ponteiros / … e nos absorveu / … e nos fez eternos.(…), e como recordo ter sido a longa espera do nada, deitada numa rede no terraço que servia de garagem em nossa casa, infeliz como criança abandonada por não ter podido acompanhar meu pai e meu irmão na pescaria sobre os arrecifes da praia Circular, como era chamada à época. Em todos esses momentos a curiosidade sobre o sentimento do tempo em mim me tomava e me deixava perplexa.

E continuo carregando comigo essa interrogação, como tantas outras que a vida me oferece, e penso que assim será até a hora da despedida. Se há horas em que, no presente, sinto claramente a divisão passado/presente/futuro ao retomar pela memória o que já vivi e ao vislumbrar à frente o que tenho por viver (com toda a incerteza que há nessa continuidade futura), há horas em que o tempo não pertence nem ao passado nem ao futuro. Se há horas em que ele corre rapidamente, há horas em que ele lentifica o passo e quase para. E há horas em que ele existe sem existir ou existindo absolutamente, conforme eu queira apreender o sentimento de eternidade por vezes vivenciado.

O tempo, essa incógnita…

 

Data da Postagem: 18 de Abr de 2019

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O outro lado

05/04/2019

 

 

 

 

 

 

 

Tarsila do Amaral Quadro ‘Operários’, de 1933

REPRODUÇÃO WIKIART

 

Tenho sempre dito para mim mesma, e também para os outros, que escrever é uma forma de me organizar interiormente, o que me traz paz face ao que vivencio. Seria uma forma de batizar pensamentos e emoções e, assim, poder reconhecê-los e aceitá-los. Ou seja, uma busca de autoaceitação.

No entanto, isso poderia ser mantido no âmbito do privado, tal como era usual em tempos antigos, quando a forma de escritura em diários pessoais era muito frequentemente utilizada.

Assim, qual o sentido de publicizar o que escrevo, já que não espero comentários? Se vêm, é bom receber, mas não acho que isso tenha de acontecer, nem fico aguardando tais retornos. Por sinal, eu gosto de ler o que os outros fazem sem a obrigação de me pronunciar, embora algumas poucas vezes o faça, por ter sido pinçado algo mais pessoal em mim.

Tal clareza, que vinha subterrânea ao longo desse tempo de existência do blog, emergiu agora com uma troca de mensagens com uma amiga da lista de Contatos utilizada para divulgar – com toda a minha irreparável prolixidade – o que revisitei e reorganizei para acesso dos textos durante todo o tempo em que nele escrevo. Retomei, inicialmente, para me lembrar de meu eu já esquecido e, depois, resolvi compartilhar com possíveis “paridades”.

Ao dizer a Sonia Othon que Apesar de saber que não escrevo literatura, a companhia no que escrevo me dá conforto. Como se eu participasse mais da humanidade… rsrs… Sou um pouco muito uma “loba da estepe”… rsrs…, ela me respondeu em sintonia empática com o que eu dizia: “Acho que não se deve pensar em fazer literatura, mas sim dar vazão a sentimentos que muitas vezes não são apenas nossos, mas de inúmeras pessoas. Nessa socialização do sentir e do pensar ocorre o encontro, a paridade, não é mesmo?”

Exatamente isso é o outro lado do sentido de escrever no blog! Ser ímpar é necessário, mas não é suficiente, pois estaria negando a minha própria condição humana. E quando se tem, como eu, ao longo da vida, uma desconfortável sensação de não pertença a lugar nenhum, eu termino me acalentando com o encontro que há quando outras pessoas compartilham algo de mim que é reconhecido como próprio do ser humano em geral.

 

PS 1 O blog sinaliza o numero de visitas havidas a cada postagem divulgada e, por isso, sei se ele não morreu e se foi constituída, de alguma forma, uma paridade. Não preciso saber se a pessoa gostou ou não do que leu – a diversidade é o diamante permanentemente lapidável da convivência humana – pois a simples abertura da página já indica que houve um movimento para tal paridade. E, evidentemente, não deve haver sequer a preocupação de algum destinatário do meu aviso de postagem em fazer o acesso, dado que eu não gostaria que houvesse uma preocupação em ler, e sim, um desejo, pois muitas vezes a prioridade do tempo da pessoa está necessariamente voltada para outras demandas da vida e não abrir pode advir dessa questão.

PS 2 A pintura de Tarsila de Amaral de certa forma me lembrou que todos somos igualmente operários na construção das nossas vidas singulares e plural.

 

Data da Postagem: 5 de Abr de 2019

Dia a dia … ou… Arte no gerúndio: Vivendo

 

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Forrando a cama…

03/04/2019

 

 

 

 

 

 

 

 

Van Gogh’s Bedroom at Arles Vincent Van Gogh

 

 

Dobrar lençóis, sacudir lençóis, esticar lençóis, dobrar lençóis, sacudir lençóis, esticar lençóis…

Durante muito tempo eu me perguntei por que não havia ainda surgido uma tecnologia que livrasse a gente de forrar a cama ao levantar de manhã.

Acomodada na confortável situação de nossa classe média, contei ao longo de muitos anos com serviços prestados que me livravam dessa tarefa. Mas, há já algum tempo, entre outras mudanças de vida, decidi contratar o serviço de diarista semanal para me ajudar a manter a casa limpa e, com isso, tive de encarar o forrar a cama ao acordar para um novo dia.

Preciso esclarecer que eu ainda estava presa ao procedimento mais comum de usar a cama para dormir e deixá-la com boa aparência durante o dia, tirando a colcha à noite e estendendo-a de manhã, depois de esticar o lençol onde dormira.

Fazer isso todo dia, saindo de casa de manhã cedo e passando quase o dia todo fora no trabalho, muitas vezes me parecia tão sem sentido… eu implicava, tinha preguiça, mas, mesmo revoltada, seguia tal rotina, sabotando, ocasionalmente, um dia aqui e outro acolá, apesar de, por tradição familiar, constituir um parâmetro importante de casa arrumada, junto com louça lavada e pia arrumada na cozinha.

De tanto me ouvir falar sobre o tema, um dia minha mãe me deu uma sábia sugestão: que em vez de forrar o colchão com o lençol, cobrindo-o com a colcha, eu invertesse a ordem: forrasse o colchão com a colcha e à noite colocasse o lençol sobre a colcha, retirando-o de manhã. Algo tão simples veio me aliviar até hoje desse ato repetido, incansavelmente, pelos homens sobre a terra, dado que os lençóis são mais leves do que a colcha.

Pelo que me consta, o procedimento é muito antigo na civilização ocidental e isso me gera um certo inconformismo por não ter havido ainda alguém que se dedicasse a criar uma saída tecnológica para salvar, principalmente as mulheres,  do maltrato de suas colunas na dobradura incômoda que é exigida no ato de forrar uma cama. Digo as mulheres, não somente pelos lares, dado que já se observa mudanças nos cuidados com a casa entre os casais jovens, mas porque eu nunca vi um camareiro homem forrando a cama em hotéis.

Cheguei até uma vez, brincando, a sugerir a alunos da área tecnológica na Cientec da UFRN, que pensassem em criar tal mecanismo e patentear, pois com certeza seriam muito ricos depois disso. Na verdade, eu brinco, mas, no fundo, acredito que seria possível uma invenção no gênero. Sempre adorei os JETSONS e o que a gente assiste em velocidade galopante de novas invenções nos tempos atuais bem que poderia incluir isso, pois muito do que era pura ficção se materializou pela criação humana. Entrando numa vereda como é de costume na minha forma de pensar: nos anos 90s eu imaginava que adoraria viver no dia em que pudesse fazer compras sem ir ao comércio, recebendo as mercadorias por tubos como se estivesse no mundo dos seus personagens; não podia, então, supor que, nos anos em que estamos atualmente, a internet me forneceria os “tubos” para que eu comprasse de sapatos a computador sem sair de casa!

Depois desse passeio que alongou meu texto, quero voltar para o dobrar lençóis, sacudir lençóis, esticar lençóis, dobrar lençóis, sacudir lençóis, esticar lençóis… como hoje faço todo dia para manter a casa agradável, como bem advoga o estilo hygge dinamarquês, que valoriza a estética ambiental para o nosso bem-estar emocional.

Quero dizer que fiz as pazes com tal rotina. Deixei de me perguntar sobre o sentido e o valor dos pequenos e repetidos gestos que compõem o nosso estar no mundo. Se antes eu me interrogava sobre ser ou não ser desperdício do tempo de vida desenvolver pequenas tarefas diárias que se faziam repetidamente necessárias – comer, tomar banho, escovar dentes, lavar roupas, e todas as que nos mantêm vivos e saudáveis em ambientes acolhedores – hoje eu posso até ter preguiça vez ou outra, mas assumo que a minha vida se constitui dos pequenos atos e que isso não a torna menos valiosa. Pelo menos, para mim mesma.

Viver ainda continua sendo para mim o criar a certeza do inesperado, mas isso se apoia na repetição dos pequenos gestos esperados, porque necessários. Esse é o seu sentido.

 

Data da Postagem: 3 de Abr de 2019

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E assim surgiu o Imparidade… segunda Marcha à Ré…

23/03/2019

 

 

 

 

 

 

 

Foto para lembrar meu ingresso na Escola de Corrida Go Runners em Natal. Corrida de rua foi um movimento para uma saúde melhor e o excelente acolhimento dado pelo Prof. Fabiano Pezzi e sua equipe merece ser registrado, pois o universo de alunos não contava com ninguém da minha idade. A foto tem o objetivo de simbolizar o movimento, que é vital, seja nas atividades físicas, seja no todo da vida.

 

– – –

Será que virei caranguejo? Eis que me vejo tentando de novo retomar a prática da escritura como escrevi em Marcha à Ré há algum tempo atrás… rsrsrs… Coisas da idade? Juro que não sei. Vamos lá, para abrir espaço para o andar para frente:

Em 2012 (razão da foto comigo mais nova, abaixo), assumindo o lugar de cuidadora principal de minha mãe, então com 90 anos de idade, pensei em criar um blog como forma de lazer possível e também uma forma de organização interna através da expressão externalizada. Eu havia feito um curso simples de WebDesign no Senac, logo após me aposentar, e pensava enveredar um pouco mais no mundo do belo, como sempre foi para mim a Arquitetura e outros lugares afins. Seria uma espécie de retomada sem fins profissionais. Isso ficou inviabilizado, mas junto com minha ignorância curiosa pela informática, tal contato abriu caminho para a idéia do blog, criado na velha modalidade de ensaio-e-erro.

E, assim, segui os passos do roteiro de pesquisa* que havia criado quando era professora na UFRN para dar forma ao que em mim aparecia como uma ideia embrionária. São esses passos, que aparecem como Páginas no Menu em projeto in gerúndio…, que trago de novo para firmar o movimento atual para a escritura:

 

imparidade

 

O eu que vai e fica nos outros, sou eu ou são os outros? Comunicar-se envolve as intrigantes e fascinantes questões de todos nós: eu/outro, singularidade/pluralidade, privado/público, secreto/manifesto, individual/coletivo, particular/geral, descontinuidade/continuidade, estar/ser… … imparidade/paridade.

PROJETO IN GERUNDIO…

1.1. PROPONDO

Quem = apresentação ⇔ https://imparidade.wordpress.com/quem-sou/

O Quê = objeto ⇔ https://imparidade.wordpress.com/o-que/

 

 

 

 

 

 

a Quem sou

 

 

 

 

 

 

 

 

Denise Dantas, formação a ziquezaguear da Arquitetura para a Psicologia, para as Ciências Sociais (mestrado) e a Psicologia Clínica (doutorado), tendo sido aconselhada a dizer isso em forma mais sofisticada, ou seja, ‘formação multifacetada’, o que para mim não elimina a visão da dança das escolhas. Acreditando que A Vida é Arte no Gerúndio, aposentei-me na profissão de professora de Psicologia na UFRN para continuar viva no trabalho diário do espírito. Profissão atual: Aluna. Nasci em 1948, adoro informática, mas sofro as injunções de uma geração que ainda usou régua de cálculo para fazer provas nas disciplinas do curso de Arquitetura nos anos 60-70 do século passado. Em minha defesa, digo que já desmontei um PC e montei de volta num curso de Manutenção e Suporte de Computadores, mesmo  que tenha encerrado e esquecido aí tudo o que aprendi. Ainda assim, aprender é sempre um prazer, em si mesmo!

b O Quê

Definir o objeto… eis a grande questão que deveria ser sempre a primeiríssima de todas. Mas, venho fugindo de parar para pensar nisso e acredito que saiba um pouquinho a razão de estar fazendo isso. É que este, ao que parece, irá ser UM BLOG DE UMA NÃO-BLOGUEIRA!

Pois, nada mais distante da linguagem da internet – como lembrou bem uma amiga, essa sim, blogueira para valer – do que a minha fala prolixa e cheia de veredas que deixam o ouvinte, ou leitor, muitas vezes tonto, a pensar que eu não chegarei ao destino esperado.

A minha primeira idéia foi compartilhar o que já escrevi, abrindo espaço para novas escriturações, à medida em que fossem sendo elaboradas pelos fatos da vida. Isso porque eu estaria unindo duas coisas que me dão prazer: escrever e operar o computador. Ao mesmo tempo, pensei que seria difícil contar com um público, na medida em que não sou escritora e iria apenas expressar vivências e/ou reflexões pessoais. No meio do mar infinito de blogs na rede, para um blog conquistar um público precisa contar com caraterísticas que, acredito, não estão presentes no Imparidade.

Daí, mais uma contradição se instalou: me dei conta de que iria COMPARTILHAR NO VAZIO DE PÚBLICO.

Com isso, talvez eu enfim tenha condição de definir O QUÊ virá a se constituir no objeto deste blog: IMPARIDADE. Em todo caso, torço que você apareça, leia e promova a constituição de uma PARIDADE momentânea.

1.2. VISANDO

Para Quê / Para Quem = objetivos ⇔ https://imparidade.wordpress.com/para-que-para-quem/

 

 

 

 

 

Para Quê / Para Quem

Compartilhar escritos antigos e novas reflexões pessoais na forma de um diário virtual, aberto também às expressões de quem quiser comentá-lo… Imparidade/Paridade… O universo de leitores pode ser apenas imaginário, mas, em princípio, é constituído por todos aqueles que, ao tomarem conhecimento do blog, queiram visitá-lo.

 

 

 

 

 

 

 

 

1.3. JUSTIFICANDO

Por Quê = justificativa ⇔ https://imparidade.wordpress.com/por-que/

Por Quê

 

 

 

 

 

 

Brincar com as palavras no tabuleiro das Palavras Cruzadas foi o jogo que mais me fisgou quando criança. Pensar o tempo todo sobre coisas simples foi sempre minha forma de respirar a vida. Escrever aqui o que penso talvez seja uma busca de me situar no espaço transicional da tensão imparidade/paridade.

Mas, há também o espírito do que diz Drummond (v. parte sublinhada e grifada em negrito) em seu conselho  à filha, reproduzido abaixo:

07 de julho de 1950,

Encantado com a notícia de estarem a caminho duas crônicas. Espiche-as um pouco, daqui por diante, e sairão no “Correio”, onde sinto falta do seu nome. Escreva, minha filha, escreva. Quando estiver entediada, nostálgica, desocupada, neutra, escreva. Escreva mesmo bobagens, palavras soltas, experimente fazer versos, artigos, pensamentos soltos, descreva como exercício o degrau da escada de seu edifício (saiu verso sem querer), escreva sempre, mesmo para não publicar e principalmente para não publicar. Não tenha a preocupação de fazer obras primas, que de há muito eu já perdi, se que algum dia a tive, mas só e simplesmente escrever, se exprimir, desenvolver um movimento interior que encontra em si próprio sua justificação. Isto é muito melhor do que traduzir Proust, distração que não distrai, porque é chata como toda tradução, e acaba nos desculpando muito fracamente perante nós mesmo de não havermos escrito por nossa conta e responsabilidade.

(trecho de uma carta de Drummond à sua filha, Maria Julieta; grifos meus)

 

 

 

 

 

 

 

*    Roteiro de Pesquisa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Data da Postagem: 23 de Mar de 2019

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Fascínios que resistem ao tempo

20/03/2019

 

 

 

 

 

Fita de Moebius

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sempre que entro no computador me deparo com material precioso para mim. Elementos da minha história de vida pessoal, profissional, viajante andante e parada na sede por conhecer outros mundos e outras realidades, os outros para mim e em mim… e lá se vão os incontáveis Kbs, Mgs, Gbs e Tgs de memória exterior a evocarem a memória interior para uma revisita a mim mesma.

E, com alma destravada*, resolvi falar do encantamento que a Fita de Moebius me provoca. Acredito que se não fosse ignorante em matemática, que a explica, eu não sentiria o mesmo efeito mágico das coisas que se apresentam sem se esclarecer, mas que enlevam crianças e adultos quando se pratica o ilusionismo.

Sem começo e sem fim…

Dentro e fora…

Como pensar o mundo senão sob a ótica de uma realidade a deslizar assim?

E uma identificação com a forma dialética de apreensão da realidade, já presente no trabalho de mestrado em Ciências Sociais, dissertando sobre o público e o privado, reapresenta-se no doutorado em Psicologia Clínica, realizado numa perspectiva de intercruzamento de áreas.

A Fita de Moebius veio então se constituir em um apoio precioso para a defesa da tese, pois ela pode transportar o que havia de básico no trabalho: o deslizamento constante sem começo e sem fim, dentro e fora, duas faces constituintes de uma mesma realidade.

Trago, apesar do blog inicialmente não ter sido criado com tal propósito, parte do material guardado como arquivo que reencontrei ao revisitar minha árvore de memória, e que foi preparado para tal apresentação à banca examinadora do doutoramento:

– – –

(…)

Quando eu me apresentei, falei do meu percurso e da minha atração pelas articulações, pelo movimento, pelo deslizamento entre a face e o verso dos fenômenos. E eu quero estender um pouco isto agora para, de certa forma, explicitar e ficar mais claro o tipo de pensamento que me é característico quando eu lido com o fenômeno psicológico e o sentido que isto toma no trabalho. Para isto, eu vou utilizar o apoio da fita de Moebius.

Eu poderia dispor de uma série de pares dicotômicos em que os elementos opostos significam, cada um, a condição de existência do seu oposto, para dispor num lado e doutro desta fita. Eu destaquei alguns.  Então, eu peço que vocês me acompanhem no manuseio e apresentação da fita. Vejam, então, que tenho elementos de um lado e de outro da fita que deve ser fechada após uma torção em suas pontas, assim… [mostrar primeiro a fita de um lado, virar depois para o outro lado, e demonstrar como se dá o fechamento da fita]. Os pares que usei para esta demonstração são Eu/Outro, Singula­rida­de/Plu­ra­lidade, Particu­lar/­Universal, Descontinuida­de/Conti­nuidade. Chamo a atenção que coloquei conceitos na vertical e em azul, que dizem respeito a este “Eu” – experiências ônticas, self, identidade social, papéis sociais– e que poderiam ser entendidos como deslizando, nesta ordem, de um pólo mais individual do “Eu” para o seu pólo mais social.  A isto, contrapus o conceito de cultura, no verso da fita de Moebius, que não tem verso

Este foi o movimento básico que me levou a compor um referencial teórico de forma a permitir uma dança interpolar, em que o amor, considerado como uma construção singular e plural, é visitado por olhares não restritos à psicologia e psicanálise e, nessas disciplinas, é percorrido com o apoio de conceitos oriundos de bases diferentes, na medida em que funcionalmente eles não são correspondentes.

Voltando aos conceitos que estão em azul, quero que seja acompanhado o movimento do pólo mais pessoal para o pólo mais social do “Eu”, caminhando de uma ponta para a outra e pensando nesta singularidade individual como uma totalidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Continuando a, de certa forma, demonstrar um pouco esta questão do tipo de pensamento que me é característico, eu quero também falar de um momento da pesquisa em que eu estava lendo o texto de Fábio Herrmann – o capítulo intitulado “O escudo de Aquiles” em “O divã a passeio” – e em que eu me deparei com conceitos que foram visualizados em imagens mentais.

Li Herrmann, pensando no par amoroso.

Ele faz uma analogia entre a função defensiva da representação e o Escudo de Aquiles. Só tem que, no caso, ele utiliza duas camadas em vez das cinco do escudo original, sendo o espaço entre as camadas preenchido pela crença, como uma liga a unir as camadas. Para ele, na unidade do ato representacional, a camada externa seria a representação do Real – a realidade – e a camada interna seria a representação do Desejo – a identidade. E, entre uma camada e outra, existiria uma liga que seria a crença. Estou aqui com dois indivíduos – pois esta foi a imagem que me veio à cabeça – pensei em dois indivíduos que estivessem, de certa forma, em contato, em comunicação e que tivessem aqui a possibilidade deste contato, desta comunicação pelo toque dos seus escudos representacionais, pelos seus “Escudos de Aquiles”. E este espaço da crença seria exatamente o espaço das trocas simbólicas – sem contágio – da realidade compartilhada, ou seja, de imersão no mundo das representações da cultura na qual eles estão inseridos e que compartilham. Então, a produção de sentidos seria possível no mundo humano, exatamente, pela relação. E, ao mesmo tempo, seria a própria produção de sentidos que caracterizaria este mundo como humano.

Mas, ao me vir esta idéia, essa imagem, me veio imediatamente em seguida uma imagem um pouco diferenciada pela associação que me veio da questão do espaço potencial de Winnicott. E a imagem já se apresentou, então, como esta figura em que esses escudos tinham uma certa imersão aprofundada no outro a ponto de, além do contato se dar pela crença, haver uma área em que havia certa imersão de um no desejo do outro. Havia, então, uma área que seria a área do desejo. No caso, me veio a imagem trazida pela lembrança associada do conceito do espaço potencial de Winnicott, aquele espaço do lúdico, do não-representável, o espaço do ôntico, do não-simbolizável. E aí estava o espaço da possibilidade da ação criativa que permite a emergência da singularidade numa forma revolucionariamente nova. Ou seja, eu visualizei na mesma imagem mental forjada pela teorização de Herrmann, a proposta conceitual de Winnicott neste sentido do espaço potencial e isso reafirmou para mim o meu caminho de deslizamento entre conceitos.

Então, eu trabalhei com um referencial teórico que foi concentrado num capítulo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(…)

 

– – –

*    Ao postar o material anterior a este – Dia D – provoquei a preocupação com meu estado de ânimo em uma amiga da minha adolescência. Após conversar com ela, sem negar o peso e a tristeza presente no que havia escrito, mas sem me encontrar em tudo no que ela havia interpretado, escrevi lá um Post Scriptum com base na nossa conversa que diz da minha convicção de que tudo tem duas faces e a alternância é intrínseca ao movimento da Vida.

 

 

Data da Postagem: 20 de Mar de 2019

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Dia D

12/03/2019

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Penso que Dia D pese menos do que o título que havia pensado antes para o que escrevo.

Dia D remete a de Desistência e, se não me fizesse lembrar a fofura da minha sobrinha-neta, que assim me chama – Dêdê – eu iria usar Dia DD por me referir mentalmente ao Dia da Desistência de Denise.

Sim, porque eu vou tentar seguir essa data como o dia em que desisti de me fazer ouvir, o dia em que desisti de participar do curioso Concurso de Pioria, nome que havia primeiramente cogitado utilizar como título dessa escritura-desabafo.

E é sobre esse concurso, em que nunca me inscrevi e no qual sempre fui situada involuntariamente como participante, que quero falar.

Não quero dizer que não tenha encontrado, menos frequentemente, pessoas que me deram espaço de acolhimento. E não falo do espaço proporcionado profissionalmente em terapia. Sendo psicóloga, não fugi à regra de ter contado com a escuta psicológica em minha vida, o que sem dúvida continuo considerando algo muito valioso. Mas, como disse meu teórico predileto, Winnicott, o próprio viver é a terapia que faz sentido.

O Dia D não significa ignorar as vezes em que fui ouvida nos meus sentimentos até quando não havia (quase) palavras na comunicação. Falei disso em https://imparidade.wordpress.com/2012/02/13/olhos-que-me-vejam-e-ouvidos-que-me-oucam/. E não significa que não tenha encontrado pessoas que me receberam em seus corações e me deram espaço para existir para elas em alguns momentos difíceis na minha vida.

Mas, espero que ele seja o marco para que eu consiga trilhar o caminho da sabedoria e enfrente a travessia da (des)esperança, ficando imune ao Concurso da Pioria com todos aqueles que não me ouvem quando tento compartilhar alguma dificuldade que estou vivendo. Que eu não espere, lembrando Comte-Sponville de uma forma pessoal. Que eu sequer tente uma comunicação impossível.

Concurso da Pioria me veio como título para a situação em que alguém leva ao outro o que se passa com ele, em sua verdade subjetiva dolorosa, e se depara com a inversão de posições, passando a ouvinte e sendo confrontado com uma comparação, indevidamente criada, em que tudo o que sente é minimizado em importância porque o outro “vive” uma situação inegavelmente pior do que a sua.

A razão das pessoas que não sabem ouvir no sentido empático não irá ser discutida aqui por mim porque, além de constituir outro tema, haveria que atentar, no caso pessoal, para uma diversidade que não ficasse numa teorização abstrata, mas no reconhecimento das singularidades que agem assim e suas particularidades, o que estaria além do meu alcance e objetivo.

A primeira vez que ouvi o termo Pioria foi de um cidadão que reclamava sobre ter tido seu imóvel prejudicado pela construção de um viaduto e que dizia ter direito a uma restituição do Imposto Predial que pagava à Prefeitura. Um contrário, na forma de Imposto Pioria.

De certa forma eu pratiquei por vezes, deliberada e malvadamente, uma devolução quando me jogavam no Concurso Pioria. Com algumas pessoas que agem assim e a quem que sou ligada muito fortemente de forma afetiva, agi usurpando o lugar de quem tinha o que compartilhar de alguma vivência dolorosa, da mesma forma como elas faziam quando a situação era inversa e, propositalmente, minimizei suas queixas e ocupei o espaço de quem tinha muito mais do que se queixar na vida. Fazer isso não foi frequente, até porque tem um caráter de farsa que não é do meu feitio normal. E o fiz com o gosto malvado de quem faz o outro se confrontar com sua própria forma de agir. Claro que não deu em nada em termos de lição para elas e eu continuei me deparando com o Concurso de Pioria com as mesmas pessoas.

Assim, o Dia D pretende ser o marco da (des)esperança de que eu venha a ser ouvida e, embora não possa me sentir uma felizarda por não ter motivos para sofrer, uma privilegiada por “ser forte” e por isso insensível à dor, alguém que não tem dificuldades pessoais (ou que, pelo menos, deveria poupar o outro de levá-las a ele), dado que isso seria inumano, espero encontrar uma saída e compartilhar tudo o que tenho de bom na vida com essas pessoas e ter outra via de apaziguamento com relação aos momentos dolorosos por que passo – como todo ser humano, aliás, pois a capacidade de sentir, para ser preservada, requer viver os contrários dialéticos da realidade – e não sentir a solidão que me envolve quando o Concurso de Pioria entra em jogo.

 

PS Uma nota final: escrever foi uma saída da Alma Travada – https://imparidade.wordpress.com/2018/09/28/alma-travada/ – e, por isso, venho complementar o seguinte: acredito que tudo na vida tem duas faces; assim, a palavra “desistência” não implica desistir do movimento em busca de uma saída, mas também faz sentido quando se desiste de uma via congestionada em busca de uma com mais fluidez no trânsito da vida…

 

Data da Postagem: 12 de Mar de 2019

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Greeeeeeeeeeeeeeeeeccce

03/10/2018

Acropolis

Em 1995 fui ao IV European Congresso f Psychology em Atenas. Ao chegar, um amigo me pediu que enviasse minha opinião sobre a viagem, porque estava interessado em ir com a esposa. Ao começar a escrever as dicas, terminei fazendo muito mais um registro escritural do que tinha vivido. Hoje o mundo lá não é mais o mesmo, assim como eu também não sou. Por isso, é preciso ler como uma expressão “datada”. O que importa é que, se não conto com uma boa memória para guardar dados externos com precisão, guardo de todas as minhas viagens as lembranças fortes dos sentimentos e emoções vividos. E essa foi uma viagem empolgante para mim. Ontem, repassei para uma amiga muito viajada que, no entanto, ainda não pisou na Grécia, onde pretende ir em 2019. E decidi trazer para aqui, enquanto não destravo a alma…

Na íntegra, como escrevi em 1995:

 

Bem aventurados os que têm ouvidos para ouvir a música da Terra…

GREEEEEEEEEEEEEEEECCEE:

Ouvindo Theodorakis (Mikis), um dos grandes da bouzouki music, para me inspirar na reportagem sobre a divina Grécia:

Hotel (Golden Age Hotel): bom, na medida de um padrão econômico confortável. (embora não seja barato) Não havia muito boa vontade de falar inglês slowly nem de ouvir com calma, meio impacientes, como de resto, os gregos em geral (às vezes penso que, como os italianos, eles berram mesmo quando não estão mal humorados…). Depois de uns “forinhas civilizados”, ficaram mais atenciosos. Diária: US $ 105 (double room). Bem em frente, na pracinha, tem duas Cafeterias: na CROSS você pode pedir a Pizza-Calzone CROSS com segurança, é ótima. Na outra, logo depois, tem um delicioso doce EKMEK, não perca! Não é o sorvete de Ekmek, é a sobremesa, ‘tá?

ACRÓPOLIS – como de se esperar, dá um frisson na alma: subida meio cansativa (embora a gente nem ligue de estar com a língua de fora), mas em setembro o clima deve ajudar (em julho é terrivelmente quente e seco). Fui duas vezes, pois quis repetir a dose de conversa com os deuses… Não se esqueça de cumprimentar as frágeis Cariátides a sustentarem com graça e leveza todo um incrível peso nos ombros. O Parthenon é perfeitamente perfeito como símbolo maior do domínio grego da arte de construir. Sabia que suas colunas não são paralelas para que sejam percebidas como se assim o fossem? Todo o conjunto impressiona. O Museu oferece o descanso necessário do sol de verão, além do que está à mostra. Olhe ao redor, a ACRO (ponto mais alto) POLIS (cidade) permitia aos cidadãos verem além dos seus limites.

Moussaka – prato típico que vale experimentar, mas que não gostei (sou ruim e matuta para essas coisas): tem berinjela, carne moída, queijo e uma massa que tem batata inglesa e ovo; Como? Não sei.

Pão – foi a razão pela qual os gregos perderam a hegemonia no mundo ocidental: eles não aprenderam a fazer o pão que os McDonald’s da vida precisam para seus sanduíches!!!! Nunca vi pão tão horroroso na minha vida!!!

Espetáculo de Luz e Som (PNYX HILL) – embora o espetáculo não seja em si deslumbrantemente apresentado (o ritmo é lento e o jogo de luzes é pobre – críticas que estou repetindo, pois eu mesma nem parei para pensar sobre isto) eu fiquei em êxtase quando vi o dourado ir tomando conta da Acrópole à medida em que a Cerimônia de Abertura do Congresso ia prosseguindo e se fazia noite ali na Pnyx Hill. Durante o espetáculo, eu nem acreditava que estava ali mesmo, olhando a Acrópole e ouvindo sua história (a apresentação foi em inglês, acredito que seja sempre assim).

Lombadas – Atenas TEM LOMBADAS!!! No campus universitário, uma cena tipicamente brasileira: lombadas para proteger o cidadão dos assassinos no volante…

PLAKA – muito gostosinho o lugar (o bairro da PLAKA fica encostado à base da Acrópole), apesar de ser o templo do consumo do turista: ruelas estreitas, poucos carros, lojas, lojas, lojas… Cafeterias bem legais num clima de “aqui é o seu lugar”. Não se surpreenda com os convites para freqüentá-las: as pessoas quase são laçadas pelos garçons e pessoal dos restaurantes e tavernas, tal como no comércio do Alecrim (acredite, é isso mesmo!). Meio artística, a atmosfera local. Prata, ouro, coisas do mar, camisetas, artesanato, bugigangas de toda ordem. Adorei o lugar, mesmo não sendo muito de perder tempo em comércio em viagens assim (o passeio sem compras também vale, só é difícil resistir). Almocei divinamente um peixe simples ao forno (pedir o Menu do Dia) numa taverna bem legal, com folhas de parreira sobre nossas cabeças, toalhas vermelhas, bem alegre. Não dá para não se ir lá, até porque umas coisinhas a gente sempre compra…

NÃO HÁ MENDIGOS EM ATENAS!!!  É isso. Incrível ver tal coisa num país que se sabe ser pobre. A sociedade grega é marcada por uma forte rede de solidariedade – que repousa, principalmente, em estreitos laços de família – e não há grandes desigualdades sociais, pelo visto.

ASTIR PALACE HOTEL – em VOULIAGMENI

Um sonho de hotel (para depois da loteria): nele tivemos o Jantar de Gala do Congresso. Quem sabe você não vai para lá? Fica à beira-mar e o jantar foi maravilhoso em tudo. UM ARRASO! Ainda bem que resolvemos arriscar, eu e minha amiga.

Correio – igualzinho ao nosso serviço público. Tenha paciência e seja compreensivo com a dureza de vida deles e terá um bom acolhimento. Na SYNTAGMA PLAZA tem uma das duas principais agências. Despachei 11 kg de papel ali. Tive o cuidado de utilizar o serviço EXPRESS MAIL (equivalente ao nosso SEDEX). É caríssimo, mas o correio grego não é bem conceituado, consta nos guias.

Táxis – tudo igualzinho aos nossos taxistas! E tem mais, pegam mais de um passageiro na corrida e cobram de todos. Não estranhe se eles pararem o carro para entrar mais alguém. Apesar de ilegal, é um costume largamente aceito por todos. Se você quiser pegar um táxi que já tem um passageiro, preste atenção ao taxímetro: você terá que pagar o que excede o valor que está marcado na hora em que você entrou, mais a bandeira (flag), que em JUL/95 era de 250 dracmas. É bom saber disto porque tem horas em que você não consegue táxi desocupado totalmente e, se você for na mesma direção do passageiro já no carro, eles lhe levam.

Em bancas de revista (como em Natal, vendem de tudo: cigarro, água  – todo mundo anda com uma garrafinha de água na mão no verão – e refrigerantes, jornais, revistas, etc.) você encontra CARTA, ou seja, cartão para telefones públicos. Varia o preço, mas pense em torno de 1500 drs. Com eles, você liga internacional, sem pagar a taxa de operação cobrada no hotel mesmo para ligações a cobrar… Não peça CARD que os gregos que não falam outra língua não entendem nada, nadinha mesmo, que não seja  falado em grego. NEM LÊEM!!! O alfabeto grego é uma loucura!

LYCABETTUS HILL – super legal a vista lá de cima. A cidade é meio cinzenta, mas, ainda assim, é lindo lá de cima. É o ponto mais alto de Atenas. Tomamos o teleférico e almoçamos lá. Deliciosa a entrada de Massa Folhada de espinafre e fetá (queijo típico de lá), mesmo para mim que não gosto de espinafre. Estávamos num tour de meio-dia.

MUSEU ARQUEOLÓGICO NACIONAL – muito interessante. A visita foi meio corrida como sempre acontece em excursões. Vale a pena ir mais devagar.

MUSEU BIZANTINO – também vale a pena visitar, embora requeira menos tempo para dar conta do acervo, que é menor.

EPIDAURUS, MICENAS E CORINTO – foi apreciadíssimo o tour de um dia. A ida à península de Peloponeso requer o acomodar-se ao sistema de excursão, para o turista comum. Epidaurus me contaminou de uma emoção anterior, a de meus velhos tempos de arquiteta, quando vibrava com o fato de estar numa área que se dizia ser a mais artística das técnicas e a mais técnica das artes. Uma guia demonstrou a acústica perfeita para qualquer dos 14.500 lugares do teatro ao ar livre: bateu palma, balançou uma folha de papel, segurando-a com as duas mãos, soltou uma chave no chão, rasgou o papel e, por fim, RISCOU UM FÓSFORO, tudo perfeitamente audível!!! Estávamos lá em cima, na última fileira, praticamente!!!  Micenas não me tocou tanto, apesar de ter gostado de ter estado lá. Corinto é impressionante como obra de engenharia, simples, mas decisiva no evitar a volta à península de Peloponeso para o comércio entre os dois mares. E é bonito também. No todo, a excursão foi muito gostosa. Tivemos a companhia do colega do congresso, meu novo amigo de Bruxelas. Ele quis ir com a gente e comprou o bilhete para tal.

Navio MTS TRITON – ótimo, cabine confortável e ambientes agradáveis. Como sempre imaginei, para mim, a viagem de navio tem mais o sentido de ida para algum canto e menos o de interesse pelo navio em si mesmo. A alimentação é boa, pero non troppo, ou seja, você come bem, sem dúvida, mas não é nada fora do comum e, ao final, já dá uma saudadezinha de outro tipo de comida. Só dá filipinos na tripulação, o que dá para imaginar que os salários ou garantias não são tão bons assim. Grego mesmo, só no alto da hierarquia.

MYKONOS – Lindinha!!!!!!!!!!!!! Evidente que só conhecemos uma pontinha de cada ilha, masssssssssssss, que pontinhas!!!!!!!!!!!!!!!! Gostei muito de Mykonos e sua singeleza sofisticada. O que conheci era essencialmente área turística. Comércio,…

SANTORINI – dei a mão a Deus e Ele me segurou um pedacinho: tocava uma música clássica num Café onde estávamos eu e minha amiga (a outra tinha resolvido ir no tour que dispensamos para andarmos simplesmente pela cidadezinha em que aportamos), olhando lá embaixo o azul penetrantemente lindo do mar, pontilhado de navios absolutamente brancos e, de repente, as gaivotas resolveram que iam dançar e fizeram com que essa imagem parasse a vida no ar, por um instante.

RODHES/LINDOS – Quem não quer saber onde estaria uma das sétimas maravilhas do mundo???????? Pois aí vai: o Colosso foi obra do escultor Lindos Jaris. Teve uma altura de 31 m e seu criador precisou de uns doze anos aproximadamente para terminá-la. Foi destruída por um terremoto em 226 a.C. Adorei a cidade no que conheci. A muralha e as obras restauradas ou reconstruídas pelos italianos são fantásticas. O banho de mar pode ser interessante para quem quer se sentir SHIRLEY VALANTINE um tanto fora de lugar (Santorini e Mykonos lembravam mais o filme), a “areia” é de pedregulhos e o mar azul da pérsia, azul contralto, azul quase (por ser à beira-mar) petróleo rapidamente torna-se fundo. Vale um passeio sem banho de mar para quem é friorenta, como eu. A entrada e a saída do porto nos dão vistas lindas da cidade. A acrópolis de Lindos também oferece vistas lindíssimas e o passeio é mais agradável se você der de cara com DIMITRI, o guia mais charmoso de toda a Grécia. Lindo é ele, não tenho dúvida. Tão lindo que acharam pouco e colocaram no plural!!! Bonito, bem feito, inteligente, culto e com um humor à la nosso Millor Fernandes. Que mais??? Professor de História em período de férias, a carregar um único defeito: o de estar lá e ser ainda trintinha e não quarentão ou cinquentão!!! (Mas, e se fosse?..)

EPHESUS – Éfeso, como você me surpreendeu! Me arrepiei quando ouvi “…Biblioteca onde Heráclito…” Já pensou?  … um homem não pode tomar banho duas vezes no mesmo rio, porque nem ele será mais o mesmo homem nem o rio será mais o mesmo rio… Depois, a parte religiosa está tão fortemente impregnada que mesmo para quem não é ligada à religião é tocante. A extensão dos achados impressiona em Éfeso. Acho que ninguém chega esperando encontrar aquilo, a não ser uns poucos mais letrados. Em KUSADAKI fomos, depois, ligeiramente ao comércio turco. Turco mesmo!

PATMOS – Não achei muito interessante a ida a Patmos, embora nada se perde no que a gente vê.  Lá a gente encontra o Monastério de São João com sua arte bizantina (fiquei com uma foto maravilhosa), e também a gruta onde ele viveu vários anos e onde escreveu O Apocalipse.

Ainda sobre o MTS TRITON: eram vários pisos, por eles chamados coberturas ou cobertas: POSEIDON, DYONISIUS, APOLLO, VENUS, URANO, HERA, ZEUS. Havia vários salões onde aconteciam os eventos sociais e as refeições: SIRENAS, 9 MUSAS. Havia shows (sem futuro), tinha um cassino (idem), etc. O MTS TRITON é da EPIROTIKI LINES.

Oúzo – bebida típica da Grécia que nem experimentei, pois o cheiro de anis me deixou nauseada (ODEIO ANIS!!!).

Vinhos gregos – não sendo especialista, gostei de todos os que tomei. Esqueci dos nomes. Retsina é um deles.

HERAKLION / CRETE – quase era esquecida. Fomos ao Palácio de Knossos e tem dados bem interessantes sobre uma civilização bastante adiantada em certos aspectos de arquitetura e urbanismo, a cretense.  A cidade, porém é terrivelmente poluída, não sei porquê: os carros todos são cobertos por uma camada pesada de fuligem escura. Não é bonita a cidade, nem gostosa, só vale pelo palácio do Labirinto do Minotauro (a guia desmistifica a lenda, contando a razão provável dela ter surgido).

Voltando a ATENAS:

Se você for ao ODEON HERODES ATICO (e não deixe de ir ao Festival de Atenas), pode comprar o ingresso lá mesmo (como não são numerados os lugares, convém chegar um pouco cedo, se quiser escolher). Cuidado com informações dadas por motoristas de táxis, não são sempre corretas. Se não tivéssemos checado, teríamos ido da frente do teatro para o centro da cidade para comprar os ingressos, porque um deles informou que era lá que a gente adquiria a entrada (CLARO QUE IRÍAMOS NO TÁXI DELE!). Perto, para fazer hora, lanchamos no Restaurante STROFI, na Rua ROUVERTOU GALI, e achamos UM ARRASO! Um cantinho super simples, mas daqueles que têm magia. Depois descobrimos que tinha fotos nas paredes de Melina Mercouri, de Gorbachev (sei lá como escreve, o da abertura da Rússia), etc, com o dono do restaurante. De lá víamos a Acrópole. No durante da viagem, tivemos lua cheia, não só sobre as águas no Mar Egeu, mas também sobre o céu de Atenas: como o pó de pirlimpimpim, prateou de beleza a apresentação de dança no Festival de Atenas que assistimos no Odeon Herodes Atico.

Por último, mas não menos importante – INDISPENSÁVEL: O templo de ZEUS, com sua majestade. Não deixe de ir lá, passando pelo Estádio Olímpico que, apesar de “recente”, tem seus atrativos.

E AINDA

Será que a gente escuta o barulho do mar no búzio do Mar Egeu??? O Mar Egeu NÃO TEM Barulho de Mar!!!!

ATENÇÃO: Há muito mais o que ver, se você tiver condições de demorar mais um pouco…

Denise Dantas

1995

 

Data da Postagem: 3 de Out de 2018

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1º de outubro: Dia do Idoso

01/10/2018

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Bom dia 🌻

Hoje é o Dia do Idoso.
Meu presente? Não ser chamada de jovem nem de menina! Isso representa a negação de toda uma vida a que devo estar aqui e agora do jeito que estou, sentindo e pensando do jeito que sinto e penso.
Muito obrigada! 😊

 

Data da Postagem: 1 de Out de 2018

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Alma travada

28/09/2018

Retroalimentando a alma para que destrave, faço um levantamento do que me trouxe aqui de 03.02.12 a 08.08.18, as chamadas escrituras anteriores.

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Data da Postagem:28 de Set de 2018

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Silenciosas Sofonias

08/08/2018

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Stephen Baker

 

Numa noite aí…

Hoje quis escrever sobre Sofonias, as várias e inúmeras sinfonias silenciosas da solidão. As negras, as cintilantes, as rosadas, as cinzas… as amarelas, azuis e laranjas… as marrons… Não me animei, embora seus acordes vibrassem em mim o dia todo. Acho que não queria questões resvalantemente pessoais no blog. Aí, pensei somente agora: poderia escrever apenas para mim. Mas, o dia acabou! Quero dormir agora. Amanhã recomeço o dia-a-dia… pequenas rotinas a que não podemos nos furtar marcam nosso estar no mundo. Nas caixinhas dos remédios, os dias vão se esvaziando e as semanas desaparecem fugidas de nossos abraços.

No fundo, sei que não era ainda hora de mexer com isso. Quem sabe um dia… Boa noite. 💤

 

“Eu me uni à minha solidão

Já não estamos sós.”

 

Data da Postagem: 8 de Ago de 2018

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Amizade

20/07/2018

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sobre a Amizade, por Francesco Alberoni:

“O registro da justiça não é o amor, é a amizade.”
“A amizade é a forma ética do eros.”
“A amizade é incompatível com um desequilíbrio excessivamente grande de poder.”
“… é um encontro entre iguais.”
“,,, na amizade, a distância entre ideal e real precisa ser curta. Na amizade não podemos alardear uma coisa e fazer outra. A amizade precisa ser leal, sincera, límpida.”

 

Data da Postagem: 20 de Jul de 2018

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A civilidade das calçadas

01/07/2018

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Estou fugindo de mim mesma há algum tempo. Sei disso quando uma frase ou uma palavra, ou ainda uma imagem, voltam insistentemente à minha consciência, a pedir que eu as vista, pois andam desnudas e sob o frio da minha indiferença.

Parei, enfim, para atender ao seu chamado… sim, Calçadas, eu as escuto há longo tempo e peço desculpas por não tê-las acolhido antes…

Em Natal, Petrópolis e Tirol não são apenas os bairros da minha infância. São os bairros das minhas calçadas até hoje. Elas inexistem como a marca de civilidade – significação dada por mim ao tapete imaginário sobre o mundo do pedestre fora da própria casa – nos outros bairros de nossa cidade.

E não importa que uma cidade seja plana ou cheia de ondulações para que haja calçadas de verdade, no sentido que dei acima: passeios sobre os quais podemos andar tranquilos, porque não têm desníveis criados aleatoriamente, ao desejo e à vontade dos que têm seus imóveis nos lugares por onde circulamos.

Se tais bairros têm um atrativo colorido afetivamente para mim e, por isso, falo de suas calçadas com carinho, além de estarem numa área plana da cidade, acredito que outras áreas de Natal poderiam oferecer o mesmo, ainda que haja muitas ondulações, pois nossa cidade foi formada sobre dunas móveis.

Sim, acredito. Como exemplo, trago Bristol, UK, onde passei um mês e por onde circulei basicamente a pé e que tem uma superfície bem mais irregular, comparando com Natal. No entanto, eu caminhava com a ajuda do tapete a me livrar de tropeçadas e/ou quedas e ganhando, com isso, a possibilidade de conhecer todas as paisagens da cidade com a vista desimpedida do papel de me proteger.

Por sinal, viajar para alguns dos outros países sempre me faz muito consciente daquilo que ainda precisamos construir em termos de nossa civilidade no tocante às calçadas! O prazer tão simples que é andar sobre um chão que nos trata com civilidade é algo inestimável para mim, além da harmonia visual do ambiente ser algo que me encanta. Até mesmo viajar por outras regiões do nosso Brasil tem o mesmo efeito.

Caminhar em cidades com calçadas sem obstáculos, poder ver o mundo ao redor, ao invés de grudar os olhos no chão para se proteger, pode ser um imenso prazer para uma pessoa, além de ser uma simples necessidade de locomoção.

E por que dar tanta importância e tê-las como emblemáticas da nossa (in)civilidade?

Porque o respeito mútuo, a consideração, a cortesia, a gentileza no convívio com o outro estão ausentes na oferta de calçadas que são verdadeiros atentados à integridade física de quem circula, e isso quando existem. Muitas vezes o solo natural e a falta de trato é o que se encontra no lugar delas.

E, para completar minha inconformidade com nossas calçadas, eis que surge agora mais algo a me prender a atenção: nossas calçadas estão afundando, ou melhor, toda a cidade construída está afundando a olhos nus! Mas, falar agora das camadas e sobrecamadas de asfalto que estão sendo, repetidamente, colocadas sobre nossas ruas é desviar o assunto e fica para outra vez. Apenas um comentário, ou melhor, uma pergunta: se o asfalto colocado fosse de boa qualidade seriam necessários recapeamentos tão espessos que em muitos lugares chegam a cobrir ou a nivelar a rua com os paralelepípedos dos meio-fios?!…

 

Data da Postagem: 1 de Jul de 2018

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