O tempo, essa incógnita…

18/04/2019

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Relógio – Marc Chagall 1914

 

Eu morava no Rio e andava de ônibus na minha vida de estudante sem carro. Estava parada no meio de um congestionamento sem fim e me preocupava com a lentidão com que nos deslocávamos, pois estava indo para um compromisso com hora marcada. A ansiedade começou a me tomar porque era importante o que tinha para fazer e o ônibus não saía quase do lugar. Até que parei de pensar no compromisso, tomada de repente pela consciência do paradoxo que vivia em relação ao tempo: eu o sentia passando ali extremamente lento e extremamente rápido. Como era possível?!… Como algo poderia ser sentido ao mesmo tempo como sendo algo tão oposto?!… O tempo para mim estava se esvaindo como um raio porque o compromisso se apresentava como ficando velozmente próximo sem eu poder alcançá-lo, e o tempo para mim passava como o andar de uma tartaruga porque o trânsito estava de um jeito tal que quase não saíamos do lugar. Eu me entretive tanto com tal vivência paradoxal que deixei de pensar no compromisso, tomada pela perplexidade da questão para mim, até que senti de novo o ônibus se deslocando normalmente e tudo voltou ao normal. Menos eu, que carreguei comigo a questão intrigante e sem resposta até que fui apaziguada, não importa se certo ou errado, pelo que me respondeu anos depois um professor de filosofia quando o interroguei sobre isso: o tempo é uma categoria psicológica!

O fato é que até hoje a vivência do sentimento do tempo continua sendo algo que me intriga. E assim vivi, por vezes, a sensação do tempo haver parado, como se o presente se tornasse infinito e não houvesse nem passado nem futuro… em bons e em maus momentos, como tentei expressar em (…)SANTORINI – dei a mão a Deus e Ele me segurou um pedacinho: tocava uma música clássica num Café onde estávamos eu e minha amiga (a outra tinha resolvido ir no tour que dispensamos para andarmos simplesmente pela cidadezinha em que aportamos), olhando lá embaixo o azul penetrantemente lindo do mar, pontilhado de navios absolutamente brancos e, de repente, as gaivotas resolveram que iam dançar e fizeram com que essa imagem parasse a vida no ar, por um instante.(…) e em (…)Na etérea luminosidade / Que nos revelou / Um ao outro. / O tempo perdeu os ponteiros / … e nos absorveu / … e nos fez eternos.(…), e como recordo ter sido a longa espera do nada, deitada numa rede no terraço que servia de garagem em nossa casa, infeliz como criança abandonada por não ter podido acompanhar meu pai e meu irmão na pescaria sobre os arrecifes da praia Circular, como era chamada à época. Em todos esses momentos a curiosidade sobre o sentimento do tempo em mim me tomava e me deixava perplexa.

E continuo carregando comigo essa interrogação, como tantas outras que a vida me oferece, e penso que assim será até a hora da despedida. Se há horas em que, no presente, sinto claramente a divisão passado/presente/futuro ao retomar pela memória o que já vivi e ao vislumbrar à frente o que tenho por viver (com toda a incerteza que há nessa continuidade futura), há horas em que o tempo não pertence nem ao passado nem ao futuro. Se há horas em que ele corre rapidamente, há horas em que ele lentifica o passo e quase para. E há horas em que ele existe sem existir ou existindo absolutamente, conforme eu queira apreender o sentimento de eternidade por vezes vivenciado.

O tempo, essa incógnita…

 

Data da Postagem: 18 de Abr de 2019

Dia a dia … ou… Arte no gerúndio: Vivendo

 

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O outro lado

05/04/2019

 

 

 

 

 

 

 

Tarsila do Amaral Quadro ‘Operários’, de 1933

REPRODUÇÃO WIKIART

 

Tenho sempre dito para mim mesma, e também para os outros, que escrever é uma forma de me organizar interiormente, o que me traz paz face ao que vivencio. Seria uma forma de batizar pensamentos e emoções e, assim, poder reconhecê-los e aceitá-los. Ou seja, uma busca de autoaceitação.

No entanto, isso poderia ser mantido no âmbito do privado, tal como era usual em tempos antigos, quando a forma de escritura em diários pessoais era muito frequentemente utilizada.

Assim, qual o sentido de publicizar o que escrevo, já que não espero comentários? Se vêm, é bom receber, mas não acho que isso tenha de acontecer, nem fico aguardando tais retornos. Por sinal, eu gosto de ler o que os outros fazem sem a obrigação de me pronunciar, embora algumas poucas vezes o faça, por ter sido pinçado algo mais pessoal em mim.

Tal clareza, que vinha subterrânea ao longo desse tempo de existência do blog, emergiu agora com uma troca de mensagens com uma amiga da lista de Contatos utilizada para divulgar – com toda a minha irreparável prolixidade – o que revisitei e reorganizei para acesso dos textos durante todo o tempo em que nele escrevo. Retomei, inicialmente, para me lembrar de meu eu já esquecido e, depois, resolvi compartilhar com possíveis “paridades”.

Ao dizer a Sonia Othon que Apesar de saber que não escrevo literatura, a companhia no que escrevo me dá conforto. Como se eu participasse mais da humanidade… rsrs… Sou um pouco muito uma “loba da estepe”… rsrs…, ela me respondeu em sintonia empática com o que eu dizia: “Acho que não se deve pensar em fazer literatura, mas sim dar vazão a sentimentos que muitas vezes não são apenas nossos, mas de inúmeras pessoas. Nessa socialização do sentir e do pensar ocorre o encontro, a paridade, não é mesmo?”

Exatamente isso é o outro lado do sentido de escrever no blog! Ser ímpar é necessário, mas não é suficiente, pois estaria negando a minha própria condição humana. E quando se tem, como eu, ao longo da vida, uma desconfortável sensação de não pertença a lugar nenhum, eu termino me acalentando com o encontro que há quando outras pessoas compartilham algo de mim que é reconhecido como próprio do ser humano em geral.

 

PS 1 O blog sinaliza o numero de visitas havidas a cada postagem divulgada e, por isso, sei se ele não morreu e se foi constituída, de alguma forma, uma paridade. Não preciso saber se a pessoa gostou ou não do que leu – a diversidade é o diamante permanentemente lapidável da convivência humana – pois a simples abertura da página já indica que houve um movimento para tal paridade. E, evidentemente, não deve haver sequer a preocupação de algum destinatário do meu aviso de postagem em fazer o acesso, dado que eu não gostaria que houvesse uma preocupação em ler, e sim, um desejo, pois muitas vezes a prioridade do tempo da pessoa está necessariamente voltada para outras demandas da vida e não abrir pode advir dessa questão.

PS 2 A pintura de Tarsila de Amaral de certa forma me lembrou que todos somos igualmente operários na construção das nossas vidas singulares e plural.

 

Data da Postagem: 5 de Abr de 2019

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Forrando a cama…

03/04/2019

 

 

 

 

 

 

 

 

Van Gogh’s Bedroom at Arles Vincent Van Gogh

 

 

Dobrar lençóis, sacudir lençóis, esticar lençóis, dobrar lençóis, sacudir lençóis, esticar lençóis…

Durante muito tempo eu me perguntei por que não havia ainda surgido uma tecnologia que livrasse a gente de forrar a cama ao levantar de manhã.

Acomodada na confortável situação de nossa classe média, contei ao longo de muitos anos com serviços prestados que me livravam dessa tarefa. Mas, há já algum tempo, entre outras mudanças de vida, decidi contratar o serviço de diarista semanal para me ajudar a manter a casa limpa e, com isso, tive de encarar o forrar a cama ao acordar para um novo dia.

Preciso esclarecer que eu ainda estava presa ao procedimento mais comum de usar a cama para dormir e deixá-la com boa aparência durante o dia, tirando a colcha à noite e estendendo-a de manhã, depois de esticar o lençol onde dormira.

Fazer isso todo dia, saindo de casa de manhã cedo e passando quase o dia todo fora no trabalho, muitas vezes me parecia tão sem sentido… eu implicava, tinha preguiça, mas, mesmo revoltada, seguia tal rotina, sabotando, ocasionalmente, um dia aqui e outro acolá, apesar de, por tradição familiar, constituir um parâmetro importante de casa arrumada, junto com louça lavada e pia arrumada na cozinha.

De tanto me ouvir falar sobre o tema, um dia minha mãe me deu uma sábia sugestão: que em vez de forrar o colchão com o lençol, cobrindo-o com a colcha, eu invertesse a ordem: forrasse o colchão com a colcha e à noite colocasse o lençol sobre a colcha, retirando-o de manhã. Algo tão simples veio me aliviar até hoje desse ato repetido, incansavelmente, pelos homens sobre a terra, dado que os lençóis são mais leves do que a colcha.

Pelo que me consta, o procedimento é muito antigo na civilização ocidental e isso me gera um certo inconformismo por não ter havido ainda alguém que se dedicasse a criar uma saída tecnológica para salvar, principalmente as mulheres,  do maltrato de suas colunas na dobradura incômoda que é exigida no ato de forrar uma cama. Digo as mulheres, não somente pelos lares, dado que já se observa mudanças nos cuidados com a casa entre os casais jovens, mas porque eu nunca vi um camareiro homem forrando a cama em hotéis.

Cheguei até uma vez, brincando, a sugerir a alunos da área tecnológica na Cientec da UFRN, que pensassem em criar tal mecanismo e patentear, pois com certeza seriam muito ricos depois disso. Na verdade, eu brinco, mas, no fundo, acredito que seria possível uma invenção no gênero. Sempre adorei os JETSONS e o que a gente assiste em velocidade galopante de novas invenções nos tempos atuais bem que poderia incluir isso, pois muito do que era pura ficção se materializou pela criação humana. Entrando numa vereda como é de costume na minha forma de pensar: nos anos 90s eu imaginava que adoraria viver no dia em que pudesse fazer compras sem ir ao comércio, recebendo as mercadorias por tubos como se estivesse no mundo dos seus personagens; não podia, então, supor que, nos anos em que estamos atualmente, a internet me forneceria os “tubos” para que eu comprasse de sapatos a computador sem sair de casa!

Depois desse passeio que alongou meu texto, quero voltar para o dobrar lençóis, sacudir lençóis, esticar lençóis, dobrar lençóis, sacudir lençóis, esticar lençóis… como hoje faço todo dia para manter a casa agradável, como bem advoga o estilo hygge dinamarquês, que valoriza a estética ambiental para o nosso bem-estar emocional.

Quero dizer que fiz as pazes com tal rotina. Deixei de me perguntar sobre o sentido e o valor dos pequenos e repetidos gestos que compõem o nosso estar no mundo. Se antes eu me interrogava sobre ser ou não ser desperdício do tempo de vida desenvolver pequenas tarefas diárias que se faziam repetidamente necessárias – comer, tomar banho, escovar dentes, lavar roupas, e todas as que nos mantêm vivos e saudáveis em ambientes acolhedores – hoje eu posso até ter preguiça vez ou outra, mas assumo que a minha vida se constitui dos pequenos atos e que isso não a torna menos valiosa. Pelo menos, para mim mesma.

Viver ainda continua sendo para mim o criar a certeza do inesperado, mas isso se apoia na repetição dos pequenos gestos esperados, porque necessários. Esse é o seu sentido.

 

Data da Postagem: 3 de Abr de 2019

Dia a dia … ou… Arte no gerúndio: Vivendo

 

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E assim surgiu o Imparidade… segunda Marcha à Ré…

23/03/2019

 

 

 

 

 

 

 

Foto para lembrar meu ingresso na Escola de Corrida Go Runners em Natal. Corrida de rua foi um movimento para uma saúde melhor e o excelente acolhimento dado pelo Prof. Fabiano Pezzi e sua equipe merece ser registrado, pois o universo de alunos não contava com ninguém da minha idade. A foto tem o objetivo de simbolizar o movimento, que é vital, seja nas atividades físicas, seja no todo da vida.

 

– – –

Será que virei caranguejo? Eis que me vejo tentando de novo retomar a prática da escritura como escrevi em Marcha à Ré há algum tempo atrás… rsrsrs… Coisas da idade? Juro que não sei. Vamos lá, para abrir espaço para o andar para frente:

Em 2012 (razão da foto comigo mais nova, abaixo), assumindo o lugar de cuidadora principal de minha mãe, então com 90 anos de idade, pensei em criar um blog como forma de lazer possível e também uma forma de organização interna através da expressão externalizada. Eu havia feito um curso simples de WebDesign no Senac, logo após me aposentar, e pensava enveredar um pouco mais no mundo do belo, como sempre foi para mim a Arquitetura e outros lugares afins. Seria uma espécie de retomada sem fins profissionais. Isso ficou inviabilizado, mas junto com minha ignorância curiosa pela informática, tal contato abriu caminho para a idéia do blog, criado na velha modalidade de ensaio-e-erro.

E, assim, segui os passos do roteiro de pesquisa* que havia criado quando era professora na UFRN para dar forma ao que em mim aparecia como uma ideia embrionária. São esses passos, que aparecem como Páginas no Menu em projeto in gerúndio…, que trago de novo para firmar o movimento atual para a escritura:

 

imparidade

 

O eu que vai e fica nos outros, sou eu ou são os outros? Comunicar-se envolve as intrigantes e fascinantes questões de todos nós: eu/outro, singularidade/pluralidade, privado/público, secreto/manifesto, individual/coletivo, particular/geral, descontinuidade/continuidade, estar/ser… … imparidade/paridade.

PROJETO IN GERUNDIO…

1.1. PROPONDO

Quem = apresentação ⇔ https://imparidade.wordpress.com/quem-sou/

O Quê = objeto ⇔ https://imparidade.wordpress.com/o-que/

 

 

 

 

 

 

a Quem sou

 

 

 

 

 

 

 

 

Denise Dantas, formação a ziquezaguear da Arquitetura para a Psicologia, para as Ciências Sociais (mestrado) e a Psicologia Clínica (doutorado), tendo sido aconselhada a dizer isso em forma mais sofisticada, ou seja, ‘formação multifacetada’, o que para mim não elimina a visão da dança das escolhas. Acreditando que A Vida é Arte no Gerúndio, aposentei-me na profissão de professora de Psicologia na UFRN para continuar viva no trabalho diário do espírito. Profissão atual: Aluna. Nasci em 1948, adoro informática, mas sofro as injunções de uma geração que ainda usou régua de cálculo para fazer provas nas disciplinas do curso de Arquitetura nos anos 60-70 do século passado. Em minha defesa, digo que já desmontei um PC e montei de volta num curso de Manutenção e Suporte de Computadores, mesmo  que tenha encerrado e esquecido aí tudo o que aprendi. Ainda assim, aprender é sempre um prazer, em si mesmo!

b O Quê

Definir o objeto… eis a grande questão que deveria ser sempre a primeiríssima de todas. Mas, venho fugindo de parar para pensar nisso e acredito que saiba um pouquinho a razão de estar fazendo isso. É que este, ao que parece, irá ser UM BLOG DE UMA NÃO-BLOGUEIRA!

Pois, nada mais distante da linguagem da internet – como lembrou bem uma amiga, essa sim, blogueira para valer – do que a minha fala prolixa e cheia de veredas que deixam o ouvinte, ou leitor, muitas vezes tonto, a pensar que eu não chegarei ao destino esperado.

A minha primeira idéia foi compartilhar o que já escrevi, abrindo espaço para novas escriturações, à medida em que fossem sendo elaboradas pelos fatos da vida. Isso porque eu estaria unindo duas coisas que me dão prazer: escrever e operar o computador. Ao mesmo tempo, pensei que seria difícil contar com um público, na medida em que não sou escritora e iria apenas expressar vivências e/ou reflexões pessoais. No meio do mar infinito de blogs na rede, para um blog conquistar um público precisa contar com caraterísticas que, acredito, não estão presentes no Imparidade.

Daí, mais uma contradição se instalou: me dei conta de que iria COMPARTILHAR NO VAZIO DE PÚBLICO.

Com isso, talvez eu enfim tenha condição de definir O QUÊ virá a se constituir no objeto deste blog: IMPARIDADE. Em todo caso, torço que você apareça, leia e promova a constituição de uma PARIDADE momentânea.

1.2. VISANDO

Para Quê / Para Quem = objetivos ⇔ https://imparidade.wordpress.com/para-que-para-quem/

 

 

 

 

 

Para Quê / Para Quem

Compartilhar escritos antigos e novas reflexões pessoais na forma de um diário virtual, aberto também às expressões de quem quiser comentá-lo… Imparidade/Paridade… O universo de leitores pode ser apenas imaginário, mas, em princípio, é constituído por todos aqueles que, ao tomarem conhecimento do blog, queiram visitá-lo.

 

 

 

 

 

 

 

 

1.3. JUSTIFICANDO

Por Quê = justificativa ⇔ https://imparidade.wordpress.com/por-que/

Por Quê

 

 

 

 

 

 

Brincar com as palavras no tabuleiro das Palavras Cruzadas foi o jogo que mais me fisgou quando criança. Pensar o tempo todo sobre coisas simples foi sempre minha forma de respirar a vida. Escrever aqui o que penso talvez seja uma busca de me situar no espaço transicional da tensão imparidade/paridade.

Mas, há também o espírito do que diz Drummond (v. parte sublinhada e grifada em negrito) em seu conselho  à filha, reproduzido abaixo:

07 de julho de 1950,

Encantado com a notícia de estarem a caminho duas crônicas. Espiche-as um pouco, daqui por diante, e sairão no “Correio”, onde sinto falta do seu nome. Escreva, minha filha, escreva. Quando estiver entediada, nostálgica, desocupada, neutra, escreva. Escreva mesmo bobagens, palavras soltas, experimente fazer versos, artigos, pensamentos soltos, descreva como exercício o degrau da escada de seu edifício (saiu verso sem querer), escreva sempre, mesmo para não publicar e principalmente para não publicar. Não tenha a preocupação de fazer obras primas, que de há muito eu já perdi, se que algum dia a tive, mas só e simplesmente escrever, se exprimir, desenvolver um movimento interior que encontra em si próprio sua justificação. Isto é muito melhor do que traduzir Proust, distração que não distrai, porque é chata como toda tradução, e acaba nos desculpando muito fracamente perante nós mesmo de não havermos escrito por nossa conta e responsabilidade.

(trecho de uma carta de Drummond à sua filha, Maria Julieta; grifos meus)

 

 

 

 

 

 

 

*    Roteiro de Pesquisa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Data da Postagem: 23 de Mar de 2019

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Fascínios que resistem ao tempo

20/03/2019

 

 

 

 

 

Fita de Moebius

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sempre que entro no computador me deparo com material precioso para mim. Elementos da minha história de vida pessoal, profissional, viajante andante e parada na sede por conhecer outros mundos e outras realidades, os outros para mim e em mim… e lá se vão os incontáveis Kbs, Mgs, Gbs e Tgs de memória exterior a evocarem a memória interior para uma revisita a mim mesma.

E, com alma destravada*, resolvi falar do encantamento que a Fita de Moebius me provoca. Acredito que se não fosse ignorante em matemática, que a explica, eu não sentiria o mesmo efeito mágico das coisas que se apresentam sem se esclarecer, mas que enlevam crianças e adultos quando se pratica o ilusionismo.

Sem começo e sem fim…

Dentro e fora…

Como pensar o mundo senão sob a ótica de uma realidade a deslizar assim?

E uma identificação com a forma dialética de apreensão da realidade, já presente no trabalho de mestrado em Ciências Sociais, dissertando sobre o público e o privado, reapresenta-se no doutorado em Psicologia Clínica, realizado numa perspectiva de intercruzamento de áreas.

A Fita de Moebius veio então se constituir em um apoio precioso para a defesa da tese, pois ela pode transportar o que havia de básico no trabalho: o deslizamento constante sem começo e sem fim, dentro e fora, duas faces constituintes de uma mesma realidade.

Trago, apesar do blog inicialmente não ter sido criado com tal propósito, parte do material guardado como arquivo que reencontrei ao revisitar minha árvore de memória, e que foi preparado para tal apresentação à banca examinadora do doutoramento:

– – –

(…)

Quando eu me apresentei, falei do meu percurso e da minha atração pelas articulações, pelo movimento, pelo deslizamento entre a face e o verso dos fenômenos. E eu quero estender um pouco isto agora para, de certa forma, explicitar e ficar mais claro o tipo de pensamento que me é característico quando eu lido com o fenômeno psicológico e o sentido que isto toma no trabalho. Para isto, eu vou utilizar o apoio da fita de Moebius.

Eu poderia dispor de uma série de pares dicotômicos em que os elementos opostos significam, cada um, a condição de existência do seu oposto, para dispor num lado e doutro desta fita. Eu destaquei alguns.  Então, eu peço que vocês me acompanhem no manuseio e apresentação da fita. Vejam, então, que tenho elementos de um lado e de outro da fita que deve ser fechada após uma torção em suas pontas, assim… [mostrar primeiro a fita de um lado, virar depois para o outro lado, e demonstrar como se dá o fechamento da fita]. Os pares que usei para esta demonstração são Eu/Outro, Singula­rida­de/Plu­ra­lidade, Particu­lar/­Universal, Descontinuida­de/Conti­nuidade. Chamo a atenção que coloquei conceitos na vertical e em azul, que dizem respeito a este “Eu” – experiências ônticas, self, identidade social, papéis sociais– e que poderiam ser entendidos como deslizando, nesta ordem, de um pólo mais individual do “Eu” para o seu pólo mais social.  A isto, contrapus o conceito de cultura, no verso da fita de Moebius, que não tem verso

Este foi o movimento básico que me levou a compor um referencial teórico de forma a permitir uma dança interpolar, em que o amor, considerado como uma construção singular e plural, é visitado por olhares não restritos à psicologia e psicanálise e, nessas disciplinas, é percorrido com o apoio de conceitos oriundos de bases diferentes, na medida em que funcionalmente eles não são correspondentes.

Voltando aos conceitos que estão em azul, quero que seja acompanhado o movimento do pólo mais pessoal para o pólo mais social do “Eu”, caminhando de uma ponta para a outra e pensando nesta singularidade individual como uma totalidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Continuando a, de certa forma, demonstrar um pouco esta questão do tipo de pensamento que me é característico, eu quero também falar de um momento da pesquisa em que eu estava lendo o texto de Fábio Herrmann – o capítulo intitulado “O escudo de Aquiles” em “O divã a passeio” – e em que eu me deparei com conceitos que foram visualizados em imagens mentais.

Li Herrmann, pensando no par amoroso.

Ele faz uma analogia entre a função defensiva da representação e o Escudo de Aquiles. Só tem que, no caso, ele utiliza duas camadas em vez das cinco do escudo original, sendo o espaço entre as camadas preenchido pela crença, como uma liga a unir as camadas. Para ele, na unidade do ato representacional, a camada externa seria a representação do Real – a realidade – e a camada interna seria a representação do Desejo – a identidade. E, entre uma camada e outra, existiria uma liga que seria a crença. Estou aqui com dois indivíduos – pois esta foi a imagem que me veio à cabeça – pensei em dois indivíduos que estivessem, de certa forma, em contato, em comunicação e que tivessem aqui a possibilidade deste contato, desta comunicação pelo toque dos seus escudos representacionais, pelos seus “Escudos de Aquiles”. E este espaço da crença seria exatamente o espaço das trocas simbólicas – sem contágio – da realidade compartilhada, ou seja, de imersão no mundo das representações da cultura na qual eles estão inseridos e que compartilham. Então, a produção de sentidos seria possível no mundo humano, exatamente, pela relação. E, ao mesmo tempo, seria a própria produção de sentidos que caracterizaria este mundo como humano.

Mas, ao me vir esta idéia, essa imagem, me veio imediatamente em seguida uma imagem um pouco diferenciada pela associação que me veio da questão do espaço potencial de Winnicott. E a imagem já se apresentou, então, como esta figura em que esses escudos tinham uma certa imersão aprofundada no outro a ponto de, além do contato se dar pela crença, haver uma área em que havia certa imersão de um no desejo do outro. Havia, então, uma área que seria a área do desejo. No caso, me veio a imagem trazida pela lembrança associada do conceito do espaço potencial de Winnicott, aquele espaço do lúdico, do não-representável, o espaço do ôntico, do não-simbolizável. E aí estava o espaço da possibilidade da ação criativa que permite a emergência da singularidade numa forma revolucionariamente nova. Ou seja, eu visualizei na mesma imagem mental forjada pela teorização de Herrmann, a proposta conceitual de Winnicott neste sentido do espaço potencial e isso reafirmou para mim o meu caminho de deslizamento entre conceitos.

Então, eu trabalhei com um referencial teórico que foi concentrado num capítulo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(…)

 

– – –

*    Ao postar o material anterior a este – Dia D – provoquei a preocupação com meu estado de ânimo em uma amiga da minha adolescência. Após conversar com ela, sem negar o peso e a tristeza presente no que havia escrito, mas sem me encontrar em tudo no que ela havia interpretado, escrevi lá um Post Scriptum com base na nossa conversa que diz da minha convicção de que tudo tem duas faces e a alternância é intrínseca ao movimento da Vida.

 

 

Data da Postagem: 20 de Mar de 2019

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Dia D

12/03/2019

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Penso que Dia D pese menos do que o título que havia pensado antes para o que escrevo.

Dia D remete a de Desistência e, se não me fizesse lembrar a fofura da minha sobrinha-neta, que assim me chama – Dêdê – eu iria usar Dia DD por me referir mentalmente ao Dia da Desistência de Denise.

Sim, porque eu vou tentar seguir essa data como o dia em que desisti de me fazer ouvir, o dia em que desisti de participar do curioso Concurso de Pioria, nome que havia primeiramente cogitado utilizar como título dessa escritura-desabafo.

E é sobre esse concurso, em que nunca me inscrevi e no qual sempre fui situada involuntariamente como participante, que quero falar.

Não quero dizer que não tenha encontrado, menos frequentemente, pessoas que me deram espaço de acolhimento. E não falo do espaço proporcionado profissionalmente em terapia. Sendo psicóloga, não fugi à regra de ter contado com a escuta psicológica em minha vida, o que sem dúvida continuo considerando algo muito valioso. Mas, como disse meu teórico predileto, Winnicott, o próprio viver é a terapia que faz sentido.

O Dia D não significa ignorar as vezes em que fui ouvida nos meus sentimentos até quando não havia (quase) palavras na comunicação. Falei disso em https://imparidade.wordpress.com/2012/02/13/olhos-que-me-vejam-e-ouvidos-que-me-oucam/. E não significa que não tenha encontrado pessoas que me receberam em seus corações e me deram espaço para existir para elas em alguns momentos difíceis na minha vida.

Mas, espero que ele seja o marco para que eu consiga trilhar o caminho da sabedoria e enfrente a travessia da (des)esperança, ficando imune ao Concurso da Pioria com todos aqueles que não me ouvem quando tento compartilhar alguma dificuldade que estou vivendo. Que eu não espere, lembrando Comte-Sponville de uma forma pessoal. Que eu sequer tente uma comunicação impossível.

Concurso da Pioria me veio como título para a situação em que alguém leva ao outro o que se passa com ele, em sua verdade subjetiva dolorosa, e se depara com a inversão de posições, passando a ouvinte e sendo confrontado com uma comparação, indevidamente criada, em que tudo o que sente é minimizado em importância porque o outro “vive” uma situação inegavelmente pior do que a sua.

A razão das pessoas que não sabem ouvir no sentido empático não irá ser discutida aqui por mim porque, além de constituir outro tema, haveria que atentar, no caso pessoal, para uma diversidade que não ficasse numa teorização abstrata, mas no reconhecimento das singularidades que agem assim e suas particularidades, o que estaria além do meu alcance e objetivo.

A primeira vez que ouvi o termo Pioria foi de um cidadão que reclamava sobre ter tido seu imóvel prejudicado pela construção de um viaduto e que dizia ter direito a uma restituição do Imposto Predial que pagava à Prefeitura. Um contrário, na forma de Imposto Pioria.

De certa forma eu pratiquei por vezes, deliberada e malvadamente, uma devolução quando me jogavam no Concurso Pioria. Com algumas pessoas que agem assim e a quem que sou ligada muito fortemente de forma afetiva, agi usurpando o lugar de quem tinha o que compartilhar de alguma vivência dolorosa, da mesma forma como elas faziam quando a situação era inversa e, propositalmente, minimizei suas queixas e ocupei o espaço de quem tinha muito mais do que se queixar na vida. Fazer isso não foi frequente, até porque tem um caráter de farsa que não é do meu feitio normal. E o fiz com o gosto malvado de quem faz o outro se confrontar com sua própria forma de agir. Claro que não deu em nada em termos de lição para elas e eu continuei me deparando com o Concurso de Pioria com as mesmas pessoas.

Assim, o Dia D pretende ser o marco da (des)esperança de que eu venha a ser ouvida e, embora não possa me sentir uma felizarda por não ter motivos para sofrer, uma privilegiada por “ser forte” e por isso insensível à dor, alguém que não tem dificuldades pessoais (ou que, pelo menos, deveria poupar o outro de levá-las a ele), dado que isso seria inumano, espero encontrar uma saída e compartilhar tudo o que tenho de bom na vida com essas pessoas e ter outra via de apaziguamento com relação aos momentos dolorosos por que passo – como todo ser humano, aliás, pois a capacidade de sentir, para ser preservada, requer viver os contrários dialéticos da realidade – e não sentir a solidão que me envolve quando o Concurso de Pioria entra em jogo.

 

PS Uma nota final: escrever foi uma saída da Alma Travada – https://imparidade.wordpress.com/2018/09/28/alma-travada/ – e, por isso, venho complementar o seguinte: acredito que tudo na vida tem duas faces; assim, a palavra “desistência” não implica desistir do movimento em busca de uma saída, mas também faz sentido quando se desiste de uma via congestionada em busca de uma com mais fluidez no trânsito da vida…

 

Data da Postagem: 12 de Mar de 2019

Dia a dia … ou… Arte no gerúndio: Vivendo

 

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Greeeeeeeeeeeeeeeeeccce

03/10/2018

Acropolis

Em 1995 fui ao IV European Congresso f Psychology em Atenas. Ao chegar, um amigo me pediu que enviasse minha opinião sobre a viagem, porque estava interessado em ir com a esposa. Ao começar a escrever as dicas, terminei fazendo muito mais um registro escritural do que tinha vivido. Hoje o mundo lá não é mais o mesmo, assim como eu também não sou. Por isso, é preciso ler como uma expressão “datada”. O que importa é que, se não conto com uma boa memória para guardar dados externos com precisão, guardo de todas as minhas viagens as lembranças fortes dos sentimentos e emoções vividos. E essa foi uma viagem empolgante para mim. Ontem, repassei para uma amiga muito viajada que, no entanto, ainda não pisou na Grécia, onde pretende ir em 2019. E decidi trazer para aqui, enquanto não destravo a alma…

Na íntegra, como escrevi em 1995:

 

Bem aventurados os que têm ouvidos para ouvir a música da Terra…

GREEEEEEEEEEEEEEEECCEE:

Ouvindo Theodorakis (Mikis), um dos grandes da bouzouki music, para me inspirar na reportagem sobre a divina Grécia:

Hotel (Golden Age Hotel): bom, na medida de um padrão econômico confortável. (embora não seja barato) Não havia muito boa vontade de falar inglês slowly nem de ouvir com calma, meio impacientes, como de resto, os gregos em geral (às vezes penso que, como os italianos, eles berram mesmo quando não estão mal humorados…). Depois de uns “forinhas civilizados”, ficaram mais atenciosos. Diária: US $ 105 (double room). Bem em frente, na pracinha, tem duas Cafeterias: na CROSS você pode pedir a Pizza-Calzone CROSS com segurança, é ótima. Na outra, logo depois, tem um delicioso doce EKMEK, não perca! Não é o sorvete de Ekmek, é a sobremesa, ‘tá?

ACRÓPOLIS – como de se esperar, dá um frisson na alma: subida meio cansativa (embora a gente nem ligue de estar com a língua de fora), mas em setembro o clima deve ajudar (em julho é terrivelmente quente e seco). Fui duas vezes, pois quis repetir a dose de conversa com os deuses… Não se esqueça de cumprimentar as frágeis Cariátides a sustentarem com graça e leveza todo um incrível peso nos ombros. O Parthenon é perfeitamente perfeito como símbolo maior do domínio grego da arte de construir. Sabia que suas colunas não são paralelas para que sejam percebidas como se assim o fossem? Todo o conjunto impressiona. O Museu oferece o descanso necessário do sol de verão, além do que está à mostra. Olhe ao redor, a ACRO (ponto mais alto) POLIS (cidade) permitia aos cidadãos verem além dos seus limites.

Moussaka – prato típico que vale experimentar, mas que não gostei (sou ruim e matuta para essas coisas): tem berinjela, carne moída, queijo e uma massa que tem batata inglesa e ovo; Como? Não sei.

Pão – foi a razão pela qual os gregos perderam a hegemonia no mundo ocidental: eles não aprenderam a fazer o pão que os McDonald’s da vida precisam para seus sanduíches!!!! Nunca vi pão tão horroroso na minha vida!!!

Espetáculo de Luz e Som (PNYX HILL) – embora o espetáculo não seja em si deslumbrantemente apresentado (o ritmo é lento e o jogo de luzes é pobre – críticas que estou repetindo, pois eu mesma nem parei para pensar sobre isto) eu fiquei em êxtase quando vi o dourado ir tomando conta da Acrópole à medida em que a Cerimônia de Abertura do Congresso ia prosseguindo e se fazia noite ali na Pnyx Hill. Durante o espetáculo, eu nem acreditava que estava ali mesmo, olhando a Acrópole e ouvindo sua história (a apresentação foi em inglês, acredito que seja sempre assim).

Lombadas – Atenas TEM LOMBADAS!!! No campus universitário, uma cena tipicamente brasileira: lombadas para proteger o cidadão dos assassinos no volante…

PLAKA – muito gostosinho o lugar (o bairro da PLAKA fica encostado à base da Acrópole), apesar de ser o templo do consumo do turista: ruelas estreitas, poucos carros, lojas, lojas, lojas… Cafeterias bem legais num clima de “aqui é o seu lugar”. Não se surpreenda com os convites para freqüentá-las: as pessoas quase são laçadas pelos garçons e pessoal dos restaurantes e tavernas, tal como no comércio do Alecrim (acredite, é isso mesmo!). Meio artística, a atmosfera local. Prata, ouro, coisas do mar, camisetas, artesanato, bugigangas de toda ordem. Adorei o lugar, mesmo não sendo muito de perder tempo em comércio em viagens assim (o passeio sem compras também vale, só é difícil resistir). Almocei divinamente um peixe simples ao forno (pedir o Menu do Dia) numa taverna bem legal, com folhas de parreira sobre nossas cabeças, toalhas vermelhas, bem alegre. Não dá para não se ir lá, até porque umas coisinhas a gente sempre compra…

NÃO HÁ MENDIGOS EM ATENAS!!!  É isso. Incrível ver tal coisa num país que se sabe ser pobre. A sociedade grega é marcada por uma forte rede de solidariedade – que repousa, principalmente, em estreitos laços de família – e não há grandes desigualdades sociais, pelo visto.

ASTIR PALACE HOTEL – em VOULIAGMENI

Um sonho de hotel (para depois da loteria): nele tivemos o Jantar de Gala do Congresso. Quem sabe você não vai para lá? Fica à beira-mar e o jantar foi maravilhoso em tudo. UM ARRASO! Ainda bem que resolvemos arriscar, eu e minha amiga.

Correio – igualzinho ao nosso serviço público. Tenha paciência e seja compreensivo com a dureza de vida deles e terá um bom acolhimento. Na SYNTAGMA PLAZA tem uma das duas principais agências. Despachei 11 kg de papel ali. Tive o cuidado de utilizar o serviço EXPRESS MAIL (equivalente ao nosso SEDEX). É caríssimo, mas o correio grego não é bem conceituado, consta nos guias.

Táxis – tudo igualzinho aos nossos taxistas! E tem mais, pegam mais de um passageiro na corrida e cobram de todos. Não estranhe se eles pararem o carro para entrar mais alguém. Apesar de ilegal, é um costume largamente aceito por todos. Se você quiser pegar um táxi que já tem um passageiro, preste atenção ao taxímetro: você terá que pagar o que excede o valor que está marcado na hora em que você entrou, mais a bandeira (flag), que em JUL/95 era de 250 dracmas. É bom saber disto porque tem horas em que você não consegue táxi desocupado totalmente e, se você for na mesma direção do passageiro já no carro, eles lhe levam.

Em bancas de revista (como em Natal, vendem de tudo: cigarro, água  – todo mundo anda com uma garrafinha de água na mão no verão – e refrigerantes, jornais, revistas, etc.) você encontra CARTA, ou seja, cartão para telefones públicos. Varia o preço, mas pense em torno de 1500 drs. Com eles, você liga internacional, sem pagar a taxa de operação cobrada no hotel mesmo para ligações a cobrar… Não peça CARD que os gregos que não falam outra língua não entendem nada, nadinha mesmo, que não seja  falado em grego. NEM LÊEM!!! O alfabeto grego é uma loucura!

LYCABETTUS HILL – super legal a vista lá de cima. A cidade é meio cinzenta, mas, ainda assim, é lindo lá de cima. É o ponto mais alto de Atenas. Tomamos o teleférico e almoçamos lá. Deliciosa a entrada de Massa Folhada de espinafre e fetá (queijo típico de lá), mesmo para mim que não gosto de espinafre. Estávamos num tour de meio-dia.

MUSEU ARQUEOLÓGICO NACIONAL – muito interessante. A visita foi meio corrida como sempre acontece em excursões. Vale a pena ir mais devagar.

MUSEU BIZANTINO – também vale a pena visitar, embora requeira menos tempo para dar conta do acervo, que é menor.

EPIDAURUS, MICENAS E CORINTO – foi apreciadíssimo o tour de um dia. A ida à península de Peloponeso requer o acomodar-se ao sistema de excursão, para o turista comum. Epidaurus me contaminou de uma emoção anterior, a de meus velhos tempos de arquiteta, quando vibrava com o fato de estar numa área que se dizia ser a mais artística das técnicas e a mais técnica das artes. Uma guia demonstrou a acústica perfeita para qualquer dos 14.500 lugares do teatro ao ar livre: bateu palma, balançou uma folha de papel, segurando-a com as duas mãos, soltou uma chave no chão, rasgou o papel e, por fim, RISCOU UM FÓSFORO, tudo perfeitamente audível!!! Estávamos lá em cima, na última fileira, praticamente!!!  Micenas não me tocou tanto, apesar de ter gostado de ter estado lá. Corinto é impressionante como obra de engenharia, simples, mas decisiva no evitar a volta à península de Peloponeso para o comércio entre os dois mares. E é bonito também. No todo, a excursão foi muito gostosa. Tivemos a companhia do colega do congresso, meu novo amigo de Bruxelas. Ele quis ir com a gente e comprou o bilhete para tal.

Navio MTS TRITON – ótimo, cabine confortável e ambientes agradáveis. Como sempre imaginei, para mim, a viagem de navio tem mais o sentido de ida para algum canto e menos o de interesse pelo navio em si mesmo. A alimentação é boa, pero non troppo, ou seja, você come bem, sem dúvida, mas não é nada fora do comum e, ao final, já dá uma saudadezinha de outro tipo de comida. Só dá filipinos na tripulação, o que dá para imaginar que os salários ou garantias não são tão bons assim. Grego mesmo, só no alto da hierarquia.

MYKONOS – Lindinha!!!!!!!!!!!!! Evidente que só conhecemos uma pontinha de cada ilha, masssssssssssss, que pontinhas!!!!!!!!!!!!!!!! Gostei muito de Mykonos e sua singeleza sofisticada. O que conheci era essencialmente área turística. Comércio,…

SANTORINI – dei a mão a Deus e Ele me segurou um pedacinho: tocava uma música clássica num Café onde estávamos eu e minha amiga (a outra tinha resolvido ir no tour que dispensamos para andarmos simplesmente pela cidadezinha em que aportamos), olhando lá embaixo o azul penetrantemente lindo do mar, pontilhado de navios absolutamente brancos e, de repente, as gaivotas resolveram que iam dançar e fizeram com que essa imagem parasse a vida no ar, por um instante.

RODHES/LINDOS – Quem não quer saber onde estaria uma das sétimas maravilhas do mundo???????? Pois aí vai: o Colosso foi obra do escultor Lindos Jaris. Teve uma altura de 31 m e seu criador precisou de uns doze anos aproximadamente para terminá-la. Foi destruída por um terremoto em 226 a.C. Adorei a cidade no que conheci. A muralha e as obras restauradas ou reconstruídas pelos italianos são fantásticas. O banho de mar pode ser interessante para quem quer se sentir SHIRLEY VALANTINE um tanto fora de lugar (Santorini e Mykonos lembravam mais o filme), a “areia” é de pedregulhos e o mar azul da pérsia, azul contralto, azul quase (por ser à beira-mar) petróleo rapidamente torna-se fundo. Vale um passeio sem banho de mar para quem é friorenta, como eu. A entrada e a saída do porto nos dão vistas lindas da cidade. A acrópolis de Lindos também oferece vistas lindíssimas e o passeio é mais agradável se você der de cara com DIMITRI, o guia mais charmoso de toda a Grécia. Lindo é ele, não tenho dúvida. Tão lindo que acharam pouco e colocaram no plural!!! Bonito, bem feito, inteligente, culto e com um humor à la nosso Millor Fernandes. Que mais??? Professor de História em período de férias, a carregar um único defeito: o de estar lá e ser ainda trintinha e não quarentão ou cinquentão!!! (Mas, e se fosse?..)

EPHESUS – Éfeso, como você me surpreendeu! Me arrepiei quando ouvi “…Biblioteca onde Heráclito…” Já pensou?  … um homem não pode tomar banho duas vezes no mesmo rio, porque nem ele será mais o mesmo homem nem o rio será mais o mesmo rio… Depois, a parte religiosa está tão fortemente impregnada que mesmo para quem não é ligada à religião é tocante. A extensão dos achados impressiona em Éfeso. Acho que ninguém chega esperando encontrar aquilo, a não ser uns poucos mais letrados. Em KUSADAKI fomos, depois, ligeiramente ao comércio turco. Turco mesmo!

PATMOS – Não achei muito interessante a ida a Patmos, embora nada se perde no que a gente vê.  Lá a gente encontra o Monastério de São João com sua arte bizantina (fiquei com uma foto maravilhosa), e também a gruta onde ele viveu vários anos e onde escreveu O Apocalipse.

Ainda sobre o MTS TRITON: eram vários pisos, por eles chamados coberturas ou cobertas: POSEIDON, DYONISIUS, APOLLO, VENUS, URANO, HERA, ZEUS. Havia vários salões onde aconteciam os eventos sociais e as refeições: SIRENAS, 9 MUSAS. Havia shows (sem futuro), tinha um cassino (idem), etc. O MTS TRITON é da EPIROTIKI LINES.

Oúzo – bebida típica da Grécia que nem experimentei, pois o cheiro de anis me deixou nauseada (ODEIO ANIS!!!).

Vinhos gregos – não sendo especialista, gostei de todos os que tomei. Esqueci dos nomes. Retsina é um deles.

HERAKLION / CRETE – quase era esquecida. Fomos ao Palácio de Knossos e tem dados bem interessantes sobre uma civilização bastante adiantada em certos aspectos de arquitetura e urbanismo, a cretense.  A cidade, porém é terrivelmente poluída, não sei porquê: os carros todos são cobertos por uma camada pesada de fuligem escura. Não é bonita a cidade, nem gostosa, só vale pelo palácio do Labirinto do Minotauro (a guia desmistifica a lenda, contando a razão provável dela ter surgido).

Voltando a ATENAS:

Se você for ao ODEON HERODES ATICO (e não deixe de ir ao Festival de Atenas), pode comprar o ingresso lá mesmo (como não são numerados os lugares, convém chegar um pouco cedo, se quiser escolher). Cuidado com informações dadas por motoristas de táxis, não são sempre corretas. Se não tivéssemos checado, teríamos ido da frente do teatro para o centro da cidade para comprar os ingressos, porque um deles informou que era lá que a gente adquiria a entrada (CLARO QUE IRÍAMOS NO TÁXI DELE!). Perto, para fazer hora, lanchamos no Restaurante STROFI, na Rua ROUVERTOU GALI, e achamos UM ARRASO! Um cantinho super simples, mas daqueles que têm magia. Depois descobrimos que tinha fotos nas paredes de Melina Mercouri, de Gorbachev (sei lá como escreve, o da abertura da Rússia), etc, com o dono do restaurante. De lá víamos a Acrópole. No durante da viagem, tivemos lua cheia, não só sobre as águas no Mar Egeu, mas também sobre o céu de Atenas: como o pó de pirlimpimpim, prateou de beleza a apresentação de dança no Festival de Atenas que assistimos no Odeon Herodes Atico.

Por último, mas não menos importante – INDISPENSÁVEL: O templo de ZEUS, com sua majestade. Não deixe de ir lá, passando pelo Estádio Olímpico que, apesar de “recente”, tem seus atrativos.

E AINDA

Será que a gente escuta o barulho do mar no búzio do Mar Egeu??? O Mar Egeu NÃO TEM Barulho de Mar!!!!

ATENÇÃO: Há muito mais o que ver, se você tiver condições de demorar mais um pouco…

Denise Dantas

1995

 

Data da Postagem: 3 de Out de 2018

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1º de outubro: Dia do Idoso

01/10/2018

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Bom dia 🌻

Hoje é o Dia do Idoso.
Meu presente? Não ser chamada de jovem nem de menina! Isso representa a negação de toda uma vida a que devo estar aqui e agora do jeito que estou, sentindo e pensando do jeito que sinto e penso.
Muito obrigada! 😊

 

Data da Postagem: 1 de Out de 2018

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Alma travada

28/09/2018

Retroalimentando a alma para que destrave, faço um levantamento do que me trouxe aqui de 03.02.12 a 08.08.18, as chamadas escrituras anteriores.

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Data da Postagem:28 de Set de 2018

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Silenciosas Sofonias

08/08/2018

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Stephen Baker

 

Numa noite aí…

Hoje quis escrever sobre Sofonias, as várias e inúmeras sinfonias silenciosas da solidão. As negras, as cintilantes, as rosadas, as cinzas… as amarelas, azuis e laranjas… as marrons… Não me animei, embora seus acordes vibrassem em mim o dia todo. Acho que não queria questões resvalantemente pessoais no blog. Aí, pensei somente agora: poderia escrever apenas para mim. Mas, o dia acabou! Quero dormir agora. Amanhã recomeço o dia-a-dia… pequenas rotinas a que não podemos nos furtar marcam nosso estar no mundo. Nas caixinhas dos remédios, os dias vão se esvaziando e as semanas desaparecem fugidas de nossos abraços.

No fundo, sei que não era ainda hora de mexer com isso. Quem sabe um dia… Boa noite. 💤

 

“Eu me uni à minha solidão

Já não estamos sós.”

 

Data da Postagem: 8 de Ago de 2018

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Amizade

20/07/2018

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sobre a Amizade, por Francesco Alberoni:

“O registro da justiça não é o amor, é a amizade.”
“A amizade é a forma ética do eros.”
“A amizade é incompatível com um desequilíbrio excessivamente grande de poder.”
“… é um encontro entre iguais.”
“,,, na amizade, a distância entre ideal e real precisa ser curta. Na amizade não podemos alardear uma coisa e fazer outra. A amizade precisa ser leal, sincera, límpida.”

 

Data da Postagem: 20 de Jul de 2018

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A civilidade das calçadas

01/07/2018

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Estou fugindo de mim mesma há algum tempo. Sei disso quando uma frase ou uma palavra, ou ainda uma imagem, voltam insistentemente à minha consciência, a pedir que eu as vista, pois andam desnudas e sob o frio da minha indiferença.

Parei, enfim, para atender ao seu chamado… sim, Calçadas, eu as escuto há longo tempo e peço desculpas por não tê-las acolhido antes…

Em Natal, Petrópolis e Tirol não são apenas os bairros da minha infância. São os bairros das minhas calçadas até hoje. Elas inexistem como a marca de civilidade – significação dada por mim ao tapete imaginário sobre o mundo do pedestre fora da própria casa – nos outros bairros de nossa cidade.

E não importa que uma cidade seja plana ou cheia de ondulações para que haja calçadas de verdade, no sentido que dei acima: passeios sobre os quais podemos andar tranquilos, porque não têm desníveis criados aleatoriamente, ao desejo e à vontade dos que têm seus imóveis nos lugares por onde circulamos.

Se tais bairros têm um atrativo colorido afetivamente para mim e, por isso, falo de suas calçadas com carinho, além de estarem numa área plana da cidade, acredito que outras áreas de Natal poderiam oferecer o mesmo, ainda que haja muitas ondulações, pois nossa cidade foi formada sobre dunas móveis.

Sim, acredito. Como exemplo, trago Bristol, UK, onde passei um mês e por onde circulei basicamente a pé e que tem uma superfície bem mais irregular, comparando com Natal. No entanto, eu caminhava com a ajuda do tapete a me livrar de tropeçadas e/ou quedas e ganhando, com isso, a possibilidade de conhecer todas as paisagens da cidade com a vista desimpedida do papel de me proteger.

Por sinal, viajar para alguns dos outros países sempre me faz muito consciente daquilo que ainda precisamos construir em termos de nossa civilidade no tocante às calçadas! O prazer tão simples que é andar sobre um chão que nos trata com civilidade é algo inestimável para mim, além da harmonia visual do ambiente ser algo que me encanta. Até mesmo viajar por outras regiões do nosso Brasil tem o mesmo efeito.

Caminhar em cidades com calçadas sem obstáculos, poder ver o mundo ao redor, ao invés de grudar os olhos no chão para se proteger, pode ser um imenso prazer para uma pessoa, além de ser uma simples necessidade de locomoção.

E por que dar tanta importância e tê-las como emblemáticas da nossa (in)civilidade?

Porque o respeito mútuo, a consideração, a cortesia, a gentileza no convívio com o outro estão ausentes na oferta de calçadas que são verdadeiros atentados à integridade física de quem circula, e isso quando existem. Muitas vezes o solo natural e a falta de trato é o que se encontra no lugar delas.

E, para completar minha inconformidade com nossas calçadas, eis que surge agora mais algo a me prender a atenção: nossas calçadas estão afundando, ou melhor, toda a cidade construída está afundando a olhos nus! Mas, falar agora das camadas e sobrecamadas de asfalto que estão sendo, repetidamente, colocadas sobre nossas ruas é desviar o assunto e fica para outra vez. Apenas um comentário, ou melhor, uma pergunta: se o asfalto colocado fosse de boa qualidade seriam necessários recapeamentos tão espessos que em muitos lugares chegam a cobrir ou a nivelar a rua com os paralelepípedos dos meio-fios?!…

 

Data da Postagem: 1 de Jul de 2018

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Os significados de Público e Privado…

30/06/2018

Denise Ramalho Dantas de Araújo

1993

 

No Brasil

[reapresento como post a página de ontem, que não deixa de ser também de hoje]

 

 

 

Os Significados de Público e Privado entre Alunos, Professores e Funcionários da UFRN

 

Os significados de público e privado entre alunos, professores e funcionários da UFRN, investigados através da análise das falas dos sujeitos entrevistados, constituem o objeto de estudo deste trabalho, que verifica se há ou não uma precisão nos limites definidores de público e privado no âmbito das representações sociais, a partir do pressuposto adotado de que a conduta dos indivíduos é por elas orientada. Dois temas subsidiários apoiaram a análise: 1) Coletivo/individual, manifesto/secreto: os sentidos de público/privado; 2) O Estado e o cidadão brasileiros. Pode dizer-se que a ambigüidade se revelou, de fato, marcantemente presente nos universos simbólicos pesquisados. As contradições internas levam à conclusão de que as categorias de público e privado se apresentam com suas delimitações imprecisas. É relevante a inexistência de um sentido de coletividade: a visão de mundo dos entrevistados parece apoiar-se num ponto de vista socialmente desprovido de uma consideração positiva da existência do outro.

Palavras-chave: Público & Privado, Identidade Social & Cidadania, Representação Social.

 

PREMISSAS

Em primeiro lugar, faz-se necessário explicitar a adoção de uma visão do fenômeno social que considera a existência de uma interinfluência entre os micro­processos da ação individual e grupal e as macroestruturas societais. Não importa quão difícil seja a possibilidade de seu desvendamento, há a convicção de que ela existe.

Em seguida, é importante ressaltar outra idéia que fundamenta o desenvolvimento do trabalho: o processo de transformação da realidade e o processo de transformação das idéias caminham lado a lado, cada um constituído e constituinte do outro.

Por fim, resta levantar a premissa diretamente relacionada ao objeto de estudo: as representações sociais, entendidas como um esquema simbólico de interpretação e construção da realidade, medeiam a nossa relação com o mundo físico e social.

 

 

O CONFIGURAR-SE DA PROBLEMÁTICA COMO UMA ESCOLHA

Presente à vida de todos nós, cidadãos brasileiros, a dificuldade de uma relação adequada com os bens e serviços públicos pode ser exemplificada através de observações de cenas do cotidiano. Por exemplo:

1. Se um aluno precisar utilizar-se de um livro de uma biblioteca no campus, o mais provável é que o encontre rabiscado;

2. Se alguém estacionar o carro num dos locais disponíveis para isso, é possível que o encontre “trancado” na volta, por outro motorista que usou o meio mais fácil de estacionar.

Seria infindável a lista de exemplos, mas estes já são suficientes. Eles se organizaram no pensamento, de acordo com o seguinte modelo hipotético da relação dos indivíduos com os bens e serviços públicos:

Quanto à preservação:

(1) O que é público não é de ninguém em particular;

(2) O que é não é de ninguém em particular não é meu.

 

Quanto à utilização:

(3) O que é público é de todos;

(4) O que é de todos é meu.

A ambigüidade marca fortemente tal relação, com posições dúbias a respeito dos direitos e deveres do indivíduo-cidadão com relação aos bens e serviços utilizados. Os direitos – o eu posso – são tomados a partir de um sentido individual de propriedade, enquanto os deveres – o eu devo – parecem ser próprios para os outros assumirem. O indivíduo, ora é parte do todo, ora está fora dele.

O reconhecimento da diferença entre o objeto percebido e o objeto conhecido, tal como preconiza a ciência, implica o abandono de uma postura indignada e moralista sobre o caso. Ou seja, requer uma ultrapassagem do nível imediato da realidade, numa atividade teórico-prática de investigação.

Tendo por pressuposto que a conduta social é orientada pelos universos simbólicos dos indivíduos, universos que se constróem, necessariamente, com o caráter histórico de produtos de uma formação social específica, surgiu o questionamento que incorreu na delimitação do objeto de estudo propriamente dito:

Será que temos a clareza conceptual a respeito do que seja público e privado? Ou a ambigüidade que se expressa ao nível do comportamento observável (e que concorre para uma realidade de indistinção da sua natureza diferenciada) tem a anterioridade das representações sociais que o norteiam? Ou seja, a própria acepção de público e de privado também se daria de forma confusa?

Não sendo uma condição suficiente, ela é, sem dúvida, uma condição necessária a um comportamento condizente com a natureza do bem ou do serviço a que se recorre. E, pensando no Brasil, no seu constituir-se enquanto Estado-Nação, é fácil pensar que haja aí um nó górdio a ser desatado por sua sociedade.

Tal hipótese de presença de ambigüidade nos universos simbólicos, a respeito de público e privado, conduziu ao tema da pesquisa: OS SIGNIFICADOS DE PÚBLICO E PRIVADO ENTRE ALUNOS, PROFESSORES E FUNCIONÁRIOS DA UFRN. Escolher a Universidade como campo de pesquisa se deve ao fato de ser uma instituição pública e isto, provavelmente, fomentar a discussão da problemática.

 

LASTRO TEÓRICO

Ao delimitar o alcance da pesquisa, a definição do objeto de estudo não elimina a necessidade de contextualização do problema, o que requer uma extrapolação dos limites temporais e também espaciais, na busca de uma compreensão do que hoje é tido por público e privado pelos alunos, professores e funcionários da UFRN.

Assim, dois aspectos teóricos foram considerados como subsidiários à ruptura epistemológica a ser efetuada no momento da análise dos discursos dos entrevistados em campo:

1) Coletivo/individual, manifesto/secreto: os sentidos de público/privado.

2)  O Estado e o cidadão brasileiros.

Para falar dos sentidos de público e privado, desde a sua origem na Grécia Antiga, é útil o apoio de um diagrama (Diagrama 1), seguindo a viagem feita na busca do entendimento da influência desses momentos no nosso pensar e agir.

Na medida em que a formação social brasileira sofreu o seu influxo, é evidente que a sua inteligibilidade é favorecida ao se extrair elementos de continuidade na vida desses termos.

Diagrama 1

Embora seja interessante analisar as diferentes categorias históricas integradas com os termos público e privado ao longo dessas sociedades, a passagem por elas tenta realçar, justamente, o que foi extraído de semelhante, que é o que importa para o tratamento dos dados coletados em entrevistas. Por isso, o destaque dado aos sentidos de coletivo-manifesto e individual-secreto para os termos público e privado, respectivamente.

São encontrados os sentidos de coletivo e manifesto para público na Grécia, onde público representava o reino da liberdade e continuidade, a realização máxima da condição de existência humana. A vida pública, que se dava na polis, era o âmbito do político – no que isso significava para os gregos – e adquiria o caráter de público na valorização da pluralidade através da conversação, a permitir a configuração de uma práxis comunitária. Os sentidos de coletivo e manifesto são inerentes à vivência na pluralidade, entendida como não sendo um simples somatório das partes  – as individualidades –  mas constituída na relação expressa e, portanto, manifesta das mesmas.

 

Público nasce, então, com os sentidos de coletivo e manifesto por se referir a uma totalidade humana ou a algo que lhe diz respeito.

O sentido de individual interliga-se ao que é tido como privado, que significava, na Grécia, o reino da necessidade e da transitoriedade, o terreno do que era próprio ao homem enquanto ser provedor de sua subsistência. O sentido de individual relaciona-se ao privado, na medida em que o que está em cena são os membros singulares na resolução das suas exigências vitais. São uma parte do todo, elementos que constituem as relações, porém focalizados fora delas, na sua singularidade. E isto é a ordem do que não precisa se mostrar em público, do que não deve ser transparente. As partes não se relacionando na constituição de um todo, prescindem do sentido de manifesto.

É momento, agora, de chamar a atenção para este tripé de grande versatilidade para o entendimento da problemática: coletivo-manifesto & individual-secreto, todo & partes, pluralidade & singularidade. E, a partir daí, lembrar a importância da clareza da distinção entre uma realidade material e sua representação, na proporção que o caráter ideológico desta pode afastá-la da base material.

Passando para Roma, é possível encontrar o sentido de coletivo no fato da oposição entre o público e o privado relacionar-se com a separação entre o que era de interesse comum e o que dizia respeito à utilidade dos particulares. A Res Publica  – o Estado Romano –  garantia o ordenamento das relações sociais sob o princípio do bem comum. Público era o âmbito do poder político exercido sob o princípio da utilitatis comunionis. Político compreende agora um componente ausente no sentido grego: o do poder. A condição fundamental do ser humano para os romanos já não é o ser político, mas o ser social, categoria que não existia entre os gregos. Apesar de também ser nítida a demarcação das esferas de vida pública e privada, como na Grécia, os romanos não se dividiam entre a vida privada doméstica e a vida pública na cidade, mas entre aquela e a participação na sociedade – societas. O sentido de manifesto estava presente na medida em que o exercício do poder público no ordenamento das relações sociais tinha visibilidade.

 

Privado era, para os romanos, o que dizia respeito ao interesse dos indivíduos enquanto membros singulares. O sentido de secreto, embora presente, tornava-se esmaecido em comparação com a situação na Grécia, não só pela nova categoria surgida, a do social, mas também por força do peso que a família teve na cultura romana.

A Idade Média européia recebeu o legado romano da sua maior obra – o Direito Romano, cujos princípios fundamentais são Honeste vivere, alterum non laedere e suum cuique tribuere1– e continuou a utilizar os termos público e privado que Roma tinha assimilado da Grécia e configurado numa nova forma. Mas, não houve uma antítese entre esfera pública e esfera privada nessa época em nenhum sentido, antigo ou moderno. Tendo em vista, particularmente, a Inglaterra, a Alemanha e a França, tinha-se no feudalismo a dominação fundiária exercida pelos senhores feudais, sob a forma de jurisdictio, com a reunião dos poderes de autoridade pública e privada. Nesse contexto, a problemática do público e do privado esteve ausente.

Já na Idade Moderna, surge o sentido moderno desses termos, a partir da separação havida entre os momentos econômico e político na constituição do Estado Moderno, no século XVI. Novamente, uma realidade dicotomizada tem lugar. O sentido de coletivo para o público, que agora se torna sinônimo de estatal, relaciona-se com a tarefa do Estado de promover o bem público, ou seja, em prol da comunidade na sua condição de totalidade. É bom lembrar que o termo público mantém, necessariamente agregado a si, o sentido de coletivo na representação de uma realidade material, ainda se ela não se realiza como efetivamente pública no sentido original grego, de uma pluralidade que não corresponde a um simples somatório de individualidades, ou seja, uma totalidade. O sentido de manifesto, no entanto, foi solapado pelo absolutismo até meados do século XVIII, quando a reação ao segredo de Estado estabeleceu sua derrubada.

Privado carregava o sentido de individual por referir-se aos membros singulares – as partes – envolvidos nas suas atividades de agentes econômicos com interesses particulares e independentes. Era a sociedade civil separada do Estado. O sentido de secreto toma, por um lado, uma linha ascendente, quando no século XVII ocorre a substituição do modo de produção feudal pelo modo de produção capitalista e, com isso, há o esvaziamento do econômico por parte da esfera do familiar, locus por excelência da privacidade moderna. Mas, por outro lado, por força do novo sistema com sua troca de informações, a esfera privada do setor privado  (sociedade civil e espaço íntimo da pequena família) deságua numa esfera pública do setor privado. É uma nova categoria histórica que se caracteriza, no século XVIII, em seu modelo liberal, por ser privada em função de sua constituição. A esfera pública burguesa tem os sentidos de coletivo e manifesto agregados ao termo público, ainda que seja privada em função de seus membros singulares estarem reunidos para defesa dos interesses particulares de sua condição de agentes econômicos independentes, contra o Estado. A sociedade civil politizada oferece um contrapeso ao Estado, concorrendo para que o sentido de manifesto para o público seja uma exigência forçosa.

Mas, com o organização do capitalismo e a superação da fase áurea do liberalismo e do laissezfaire no comércio internacional, no século XIX, o que se assiste é uma estatização progressiva da sociedade e, ao mesmo tempo, uma socialização do Estado, extinguindo-se a base de origem da esfera pública burguesa: a separação entre Estado e sociedade civil. E aí se encontra um sentido novo de imbricação do público com o privado que requer, ainda, um maior esclarecimento enquanto categorias históricas que não mais dizem respeito a uma realidade dicotomizada de forma absoluta.

Pondo, agora, a lente mais próxima do objeto de estudo no tempo e no espaço, pode-se seguir com o apoio de outro diagrama (Diagrama 2) para uma perspectiva diacrônica do Estado e do cidadão brasileiros, no que interessa aqui. Isto é necessário porque os sujeitos da pesquisa se inserem numa realidade concreta e histórica. E, se com sua identidade social eles interagem com o meio, é no papel social de cidadão que se encontra a via de acesso à compreensão da sua relação com os bens e serviços que utiliza.

Diagrama 2

Na realidade social brasileira, encontra-se a coexistência de duas origens diferentes e contraditórias da imbricação do público com o privado, uma ligada ao elemento arcaico, tradicional, e outra ao moderno. Por um lado, as origens lusitanas legam as características patrimonialistas do Estado Português e, por outro lado, a transformação capitalista enseja a ocorrência de uma progressiva estatização da sociedade e socialização do Estado.

Faoro diz que “O inglês fundou na América uma pátria, o português um prolongamento do Estado” (FAORO, 1989, p.122) para enfatizar a força do domínio português no Brasil Colônia. E esse Estado Português seguiu um curso excêntrico em relação aos seus vizinhos europeus já comentados. Portugal não viveu o feudalismo e sim o patrimonialismo, segundo Faoro, que usa o sentido dado por Weber a um tipo ideal de organização da sociedade. E, na organização patrimonial, não há distinção entre as esferas pública e privada.

Da Monarquia aos dias atuais, a interpenetração do público e do privado, de forma ambígua, sustenta-se na teia das relações pessoais, pois a pessoalização das relações do Estado Português prolongado no Brasil não se apagou nesta sociedade que nasce dentro de uma tradição autoritária. E este elemento irracional do poder pessoal merece ser levado em consideração na medida em que, além de tudo, extrapolou as instituições político-administrativas, diluindo-se por todo o tecido social.

O berço do cidadão brasileiro é, assim, uma Nação na retaguarda de um Estado autoritário, cujo pulsar é a sua sociedade política. A dominação tradicional é marcada pela pulverização da pluralidade em simples elementos singulares que não chegam a integrar o sentido de coletividade.

De tal forma a tradição e o conservadorismo se mantêm presentes nesse percurso de brasilianidade marcado pela ambigüidade que, já se encontrando o país sob o funcionamento do capitalismo, é a relação pessoal, a pessoalização das relações sociais sob um tipo de poder político tradicionalista que, como fonte da imbricação do público e do privado, melhor evidencia a indefinição dessas categorias. Vale lembrar que o liberalismo aqui esqueceu a universalidade abstrata, ideologicamente sua essência, pois, incorporada como uma ideologia alienígena, não era necessária a um Estado que prescindia da hegemonia como base de sustentação.

Não houve um percurso semelhante àquele falado anteriormente para a sociedade civil brasileira. Sem um momento inicial de nítida separação do Estado, perdeu na sua cristalinidade. Não havia nem mesmo pequenos proprietários a se constituírem, na qualidade de agentes econômicos, como um contrapeso ao Estado.

A tudo isso, se junta um complicador que não é um fenômeno local: a tecnificação, a mitologização do saber extrapolam o político e o econômico e fazem da cultura o seu espaço, concorrendo para que, na sociedade de massas, sejamos objetos e não sujeitos, consumidores de idéias e não seus produtores. Para a dominância de um pensamento acrítico concorre a força da mídia.

O “Eu” que no tradicional era subjugado pelo Estado sem Nação e que, por isto, não constituía o “Nós”, defronta-se, no moderno amalgamado ao que não foi superado, com a valorização do “Eu”, que se evade para a privacidade da esfera íntima, sem o “Nós”, o que é a sua ruína, na vivência descoletivizada.

Fica difícil pensar, então, que os sentidos de coletivo e manifesto para o público e de individual e secreto – se bem que possam ter sua força ideológica – funcionem como norteadores da ação do indivíduo-cidadão, na medida em que os universos simbólicos traduzem, numa visão de mundo, a conjunção de elementos contraditórios e ambíguos:  o ESTADO-NAÇÃO BRASILEIRO.

 

O OBJETO DE ESTUDO

Sem considerar que as metodologias qualitativas funcionam como alternativas aos modelos quantitativos, elas se prestam com maior pertinência à busca de especificidades de um fenômeno em casos como o desta pesquisa.

Assim, muito embora se tenha recorrido a uma amostra definida segundo critérios estatísticos de representatividade do universo de alunos, professores e funcionários da UFRN para uma premissa de 99% de representações ambíguas acerca do público e do privado, esta questão não era relevante para o momento. Ou seja, já se reconhecia que o trabalho, não visando a verificar se tal premissa se confirmaria, não permitiria a afirmação de que a amostra é representativa do universo pesquisado (isto requereria um tratamento quantitativo dos dados e, caso venha a surgir tal interesse, a porta estará aberta, este o verdadeiro motivo de tal procedimento). Embora isto possa ter relevância para outros propósitos, o caráter exploratório do conteúdo dos discursos, a qualidade reveladora de um imaginário social em curso é o que está em jogo. Assim, o título do trabalho diz “…entre os alunos…”  de forma proposital, pois não se está a falar “dos” alunos, professores e funcionários da UFRN.

Como leito teórico sobre o qual corre todo o desenvolvimento do trabalho, mas, em especial, o objeto de estudo propriamente dito, há o apoio de Moscovici, Berger e Luckmann.

A consideração da relação entre os elementos objetivos e subjetivos, ou, em outros termos, do elo indivíduo-sociedade e a persistência de contradições observáveis no empírico, a suscitarem tantas discussões que resvalam para um tom improficuamente moralista, ensejam a formulação de uma questão anterior, qual seja, a de existirem ou não representações sociais claras a respeito do público e do privado, como já foi, anteriormente, falado.

Sendo essa a matéria da pesquisa, torna-se interessante trazer o foco, primeiramente, sobre os atores sociais, começando pelos dois primeiros termos da caracterização do homem como ser bio-psico-social. É que a conceituação de dois fenômenos psíquicos em especial – a representação e a consciência – é esclarecedora para o entendimento da unidade sujeito-objeto ao nível intra-psíquico, que faz do homem um ser dotado de capacidade reflexiva:

“As impressões sensoriais deixam a marca da sua ação, o efeito mnêmico, que pode ser revivido sob a forma de representação (re-apresentação  = reprodução da imagem de). Chama-se, portanto, representação o ‘ato de conhecimento que consiste na reativação de uma lembrança ou imagem mnêmica, sem a presença real do objeto correspondente’2. As representações são constituídas pelas imagens dos objetos e fenômenos percebidos nas experiências anteriores e evocadas de modo voluntário ou involuntariamente.” (PAIM, 1978, p.39);

“A consciência pode ser encarada sob dois aspectos: o subjetivo e o objetivo. A consciência subjetiva é a propriedade de serem os fenômenos conscientes conhecidos pelo indivíduo. A consciência é objetiva pelo seu conteúdo, que se reflete no plano subjetivo sob a forma de percepções, representações, conceitos, etc. (…) A consciência pode ser considerada, do ponto de vista psiquiátrico, como um processo de coordenação e síntese da atividade psíquica. Nesse processo, podem-se destacar duas orientações diferentes: de um lado, a consciência do eu, como conhecimento que temos de existirmos como individualidade distinta das demais coisas do mundo e, de outro lado, a consciência dos objetos. Objeto, em Psicologia, significa tudo aquilo que é apreendido ou se encontra, em dado momento, no campo da consciência, seja uma percepção, uma representação ou um conceito.” (PAIM, 1978, p.153-4)

Ora, é esse indivíduo enquanto um “sujeito empírico que fala, pensa e quer, ou seja, a amostra individual da espécie humana tal como a encontramos em todas as sociedades” (DUMONT, 1985, p.37), que vai ter a sua ação concretamente estruturada em combinação com elementos que são calcados no social e no cultural.

Há, portanto, uma dimensão pessoal e uma dimensão social na identidade social do indivíduo, que localiza os indivíduos em um universo social específico, tornando-os aptos às relações sociais, a par das relações de direitos e deveres socialmente codificados através dos papéis a serem desempenhados pelos atores sociais. Isto porque o caráter dialético do fenômeno social encontra-se na dinâmica dos seus três momentos: exteriorização, objetivação e interiorização3, sendo que as estruturas subjetivas da consciência individual derivam das estruturas da objetivação do mundo social nas suas instituições, a linguagem como veículo de conservação da realidade, no estabelecimento de uma simetria  – que não corresponde a uma igualdade –  entre o mundo objetivo da sociedade e o mundo subjetivo do indivíduo.

Se o respaldo teórico de Berger e Luckmann (BERGER, 1985) e (BERGER e LUCKMANN, 1985) é basilar para esta pesquisa em que se está envolvido com a questão da construção social da realidade, não menos importantes são as ponderações de Gramsci (GRAMSCI, 1987) a respeito da questão básica Sujeito-Objeto como momentos de uma práxis. Entende-se, aqui, que os seus “Nãos” ao materialismo vulgar e ao idealismo reabilitam o elo indivíduo-sociedade, pois dali se depreende que o pensamento criador, aquele que se efetiva numa ação transformadora do ponto de vista social, desde que configurado numa ação coletiva, implica a existência de sujeitos, mas há uma indissociabilidade sujeito-objeto ao nível individual, tanto quanto entre esta unidade (em si, um “bloco histórico”) e o bloco histórico (neste caso, a formação social). Portanto, a criatividade resulta de um movimento dialético e o constitui, e entender a afirmativa de que toda a história só pode ser construída pelo homem coletivo, passa a exigir que se ultrapasse os limites estreitos da desvalorização do individual, apesar da clareza com que isto descarta a vontade individual como móvel, em si, da história.

Tendo os atores sociais sob a luz de tais formulações teóricas, entra-se na área da realidade compartilhada socialmente, no mundo intersubjetivo cujo veículo é a linguagem e cuja forma de ser é a comunicação. São as representações sociais a matéria deste estudo, aqui tidas como constituídas e constituintes da realidade social e, portanto, seguindo a posição de Moscovici de ser, ao mesmo tempo, um processo e um produto,  uma construção do real. As representações sociais comportam, além disso, um caráter sintético que reúne uma face icônica e uma face simbólica, ou seja, “Representation  =  image/meaning; in other words, that it equates every image to an idea, and every idea to an image” (MOSCOVICI, 1984, p.17). Como um modo específico de compreensão e comunicação, elas se constituem num esquema de interpretação e de construção da realidade, transpondo, assim, os limites conceituais da “representação coletiva” de Durkheim  – uma classe geral de idéias e crenças, seu ponto de partida.

A coleta de dados foi realizada através de entrevistas semi-estruturadas (a pesquisa restringe-se à análise dos discursos, sem confrontá-los com a ação). Num primeiro momento, o conteúdo dos discursos, em si mesmo, assumiu o destaque na situação de análise dos dados. Disso resultou uma categorização das falas, a partir do seu interior. Num segundo momento, foi realizado um trabalho de aná­lise articulado ao desenvolvimento teórico dos aspectos já comentados.

É importante destacar que, na medida em que se toma representação social como sendo, ao mesmo tempo, um processo e um produto, um esquema de interpretação e de construção da realidade, a sua apreensão se torna algo extremamente complexo e, inevitavelmente, parcial. Mas, sobretudo que, expandir esta parcialidade ao seu máximo de abrangência possível, requereria um confronto do discurso com a ação.

Esclarecido que os limites deste trabalho se encerram na análise dos discursos dos entrevistados, é possível, de fato, de maneiras variadas, falar-se de uma marcante presença de ambigüidade nas suas falas.

Os pontos a destacar a respeito do que foi encontrado são, seguindo o esquema de classificação da matéria:

 

CIDADÃO & BENS E SERVIÇOS PÚBLICOS E PRIVADOS

 

1 – Comportamento sob juízo de valor: a prática e o ideal normativo

 

PÚBLICO

Um tom de negatividade é apreensível. Há uma significativa ausência do uso do pronome na forma da 1ª pessoa do plural, evidenciando uma predominante colocação de exterioridade no comportamento valorado negativamente.

PRIVADO

A relação do cidadão com os bens e serviços privados é avaliada positivamente num primeiro momento de expressão dos entrevistados, mas isto logo será derrubado no que se refere aos bens privados de outros, na continuação das entrevistas. O nãodito começa a ganhar espaço e a merecer análise.

 

A prática                       

 

Utilização e preservação dos bens           

 

PÚBLICO

                                                                

A descrição do comportamento do cidadão é possível de enquadramento no modelo hipotetizado – preservação e utilização – o que permite se levantar outras questões: se o desleixo, a falta de zelo, a depredação, etc., se apoiam, principalmente, na concepção vigente do “Não é meu”, seria verdade, então, que os bens privados de outros são objeto de idêntica falta de zelo, mas os bens privados próprios são objeto de cuidados quanto à sua preservação? E o que significaria isto, sendo ou não verdade? No tocante à utilização, também é possível o enquadramento no modelo hipotetizado, com toda a sua ambigüidade;

PRIVADO

BENS PRÓPRIOS – Predominando a omissão, o próprio bem é tido como merecedor de zelo por parte de seu proprietário;

BENS DE OUTROS – Também, e até mais fortemente, o silêncio impera que sobre a questão, mas é significativo que, ao ser abordada, os entrevistados não indicam a existência de um zelo, em si. Importante é atentar que é no confronto que se afirma o ser da propriedade individual ou coletiva: meu/seu/dele/­nosso/deles requerem entre si o contraste para existirem.

    

O (funcionário no) serviço público e o (empregado no) ser­viço privado

      

PÚBLICO

Aqui não se encontra algo muito diferente do que foi achado acima;

PRIVADO

O interesse e o controle são percebidos como conjugados à relação do empregado com os bens que lida. Daí, encontrar-se uma eficiência profissional não existente no âmbito do que é público.

    

 

Atribuição de causalidade: cidadão e sociedade/Estado

 

PÚBLICO                                                                 

CIDADÃO E SOCIEDADE – Sobre a sociedade e, particularmente sobre o indivíduo que não porta uma consciência do problema, recaiu a atribuição do estado de coisas. No entanto, ele é isentado da responsabilidade, de certa forma: é, principalmente, a ausência de educação e a existência de uma (falta de) cultura que o levam a agir assim. “Ser ou não ser o dono” surge como guia da ação. Algumas considerações são conseqüentes a tais achados: 1) A dicotomia Estado & Sociedade refletindo possivelmente a ausência de participação na vida política do país; 2) A falta de consciência apontada refere-se à origem dos bens e isto é feito sob um prisma individualizante; 3) A concepção de educação não passa pelo aspecto vivencial de uma prática no espaço público; 4) A coibição dos comportamentos impróprios de forma a evitar a impunidade como concorrente para a situação (também apontada) não seria algo de peso se, e somente se, estivesse atrelada à construção de uma ética que somente pode se dar na pluralidade?

ESTADO – Sendo reduzida a atribuição nesta direção, há dois dados interessantes: 1) vinculada à não preservação aparece a responsabilização do Estado, por não usar o seu poder de coerção; 2) vinculada à utilização surge a questão da privatização do uso, mas não a questão da coercitividade, como se se desse uma certa invisibilidade da impropriedade desse comportamento.

 PRIVADO

 CIDADÃO E SOCIEDADE – Quando da própria pessoa, destaca-se a consciência do trabalho que gerou a sua aquisição, e a racionalidade necessária ao uso; Quando de outros, é o poder coercitivo que assume destaque enquanto fator concorrente para que sejam preservados e utilizados adequadamente; No serviço privado surge um novo fator concorrente que é expresso dentro de uma avaliação positiva: a remuneração motivando o indivíduo.

ESTADO – O Estado, tanto no que se refere ao seu poder de polícia quanto no seu papel de ordenador jurídico das relações sociais, é silenciado, no geral.

 

 

O ideal normativo: direitos e deveres

 

PÚBLICO                                                     

Em termos ideais, sobressaem os deveres, a educação como um ideal instrumental para a aprendizagem dos deveres do cidadão para com os bens e serviços públicos. Aí fica bem transparente a ambigüidade, na medida em que é de se esperar que o ideal normativo comporte valores que, postos em prática, resultem na eliminação de tais condutas. No entanto, há situações em que a proposição parece se amoldar à situação, levando a uma posição em que, já que o público é apropriado, deveria incidir nele um tratamento semelhante ao dado ao privado.

PRIVADO

Novamente é predominante a omissão sobre haver direitos e deveres desejáveis para o lidar com bens e serviços privados. Isto se dá de forma tão acentuada ao longo de todos os itens do privado, que traz à tona o Estado Brasileiro e seu processo de constituição, à luz de um modelo português e à sombra de um regime escravagista. Dois elementos contrários à lógica capitalista, onde a relação entre as partes se apoia numa concepção individualista de mundo, a propriedade privada existindo num mundo de iguais.

2 – Características do público e do privado

 

PÚBLICO                                                     

O sentido de coletivo perpassa quase a totalidade dos discursos, mesmo quando é contradito na própria fala do sujeito. Um exemplo interessante é o da exclusão dos que têm posses. Dentro da caracterização do público como coletivo, encontram-se variações conforme seja apresentado apenas como estatal ou também como comunitário. Aí se torna patente a dificuldade de conceituar o que seja público. Por vezes, público assume o caráter de algo doado pelo Estado à sociedade. O sentido de manifesto para o público está praticamente ausente.

PRIVADO

O atributo de individual  – pessoal, particular, específico –  aparece com nitidez, na maioria das vezes indicativo de uma posse: é o “ser dono” que marca a posição do indivíduo com os bens e serviços privados. Daí ele ser útil à(s) pessoa(s) que pode(m), inclusive, obter lucro com isso. Como aconteceu com o público, as falas dos entrevistados não incluem o outro sentido de privado  – o de secreto –  aqui, numa omissão absoluta. A ambigüidade surge nos universos simbólicos com tamanha presença que é possível, inclusive, encontrar-se a inversão da situação em que o privado, por ser de interesse coletivo, é tido como público, tendo-se, então, o sentido de coletivo aposto, de alguma forma confusa, à caracterização do privado.

 

CONCLUSÃO

 

PÚBLICO                                                     

 Em resumo, público tido como aquilo que é coletivo  – comunitário e/ou estatal –  não se sustenta nem ao nível representacional de interpretação da realidade, na medida em que a ambigüidade dos discursos revela a dificuldade de conceituação dessa categoria.

PRIVADO

 Em síntese, apesar da maior nitidez  das representações sociais a respeito do privado, ainda é apreensível uma certa confusão. A categoria não escapa ilesa de um brasileiríssimo turvo conúbio. A não entrada em cena de uma alteridade necessária, enquanto confronto que consubstancie a relação eu/outro, sobressai como possível egocentrismo decorrente de uma aprendizagem não realizada da vivência coletiva.

Numa consideração final do que foi desenvolvido, vale salientar que a imbricação do público com o privado na realidade material da formação social brasileira parece, de fato, transportar-se para o âmbito do subjetivo, que atua, por sua vez, não apenas como elemento reflexo, mas também como elemento acionador de sua  reprodução. No entanto, este movimento inercial pode vir a ser rompido se tivermos uma articulação da sociedade civil e da sociedade política, enquanto realidade material, impulsora da construção de uma representação cristalina: público é o que é de todos, e o que é de todos é nosso.

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Notas

 

1 Viver honestamente, não prejudicar a ninguém e dar a cada um o que lhe pertence.

2 Grifos nossos

3 A exteriorização é a “contínua efusão do ser humano sobre o mundo, quer na atividade física quer na atividade mental dos homens”; A objetivação é a “conquista por parte dos produtos dessa atividade (física e mental) do homem, de uma realidade que se defronta com seus produtores originais como facticidade exterior e distinta deles”; A interiorização é a “reapropriação dessa mesma realidade por parte dos homens, transformando-a novamente de estrutura do mundo exterior em estruturas da consciência subjetiva”.  (BERGER, 1985, p.16)

1993

 

Data da Postagem: 30 de Jun de 2018

Dia a dia … ou… Arte no gerúndio: Vivendo

 

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Luto antecipado

10/06/2018

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Adeus – AUGUST MACKE

 

Perder alguém querido extrai de nós nossos alicerces de segurança e nos joga na incerteza do impermanente. Nada no mundo fica sólido, tudo passa a conter tangível sua possível perda. O sentimento de desamparo acompanha todas as dores que vêm do não ter mais a pessoa que amamos entre nós.

E tais vivências podem nos fazer também viver o medo de novas perdas significativas ao termos a concretude da fragilidade da existência humana no nosso existir.

Se isso ocorre, ao luto do que se perdeu, soma-se o luto antecipado do que poderá vir a ser perdido, principalmente quando outros seres queridos adoecem e, com isso, parece desmoronar-se o mais importante reduto de confiança que nos sustenta na vida: o do afeto.

Mas, há algo a ser entrevisto nas braçadas que são dadas para não se afundar na dor. A insegurança pode dar vez à compreensão de que, ao lado, há também pessoas em luto e que elas estão realizando a travessia delas, tanto quanto se está fazendo a própria, na correnteza da dor, do desamparo, da funda tristeza e de tudo aquilo que acompanha o estar de alguém que não está mais. E que o tempo de cada travessia tem uma dimensão pessoal e intransferível. O próprio adoecimento pode se constituir numa expressão da dor que se sente.

É preciso acreditar, no entanto, que, se a perda foi permanente, a dor pode dar lugar à saudade sem sofrimento. E, com isso, seguir o movimento de vida que leva até aí, sem antecipar perdas não havidas, para que não se viva um luto advindo do real e outro dos fantasmagóricos medos que todos temos de dizer adeus àqueles a quem queremos bem.

 

Data da Postagem: 10 de Jun de 2018

Dia a dia … ou… Arte no gerúndio: Vivendo

 

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O gênio e eu

28/05/2018

Há um grupo fechado no Facebook que agrega mulheres que viajam sozinhas e, para elas, eu dirijo o pensamento de Einstein em resposta ao que escreveram para mim quando falei da minha última viagem, comemorando meus 70 anos, antecipadamente em um mês, para poder estar na primavera com suas flores. É a minha forma de agradecimento a tantas manifestações de apoio. Obrigada a todas vocês. Aí está:

“O mistério da vida me causa a mais forte emoção. É o sentimento que suscita a beleza e a verdade, cria a arte e a ciência. Se alguém não conhece esta sensação ou não pode mais experimentar espanto ou surpresa, já é um morto­vivo e seus olhos se cegaram. (p. 16)”

Trecho de Como Vejo o Mundo, de Albert Einstein cf estava na citação que li e guardei como preciosidade única!

 

Trago outra referência (capa acima), que ficou guardadinha comigo por me reconhecer nela também, nessas identificações que podemos ter, em nossa medianidade, com mentes brilhantes por termos em comum a nossa humanidade.

 

 

Data da Postagem: 28 de Mai de 2018

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